QUANDO NADA MAIS VALE À PENA

Escrevinhação n. 1011, redigido em 03 de junho de 2013, dia de Santa Clotilde e de São Carlos Lwang e companheiros.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Há momentos em que nos perguntamos se tudo o que fazemos realmente tem alguma valia. Dificilmente tal indagação emerge em tenra idade. Na maioria dos casos esta vê-se aflorar quando nos encotramos na meia idade, quando já trilhamos um bom tanto de nossas primaveras.

Somente quando já tivemos certas experiências, quando já provamos duma relativa gama de sabores e dissabores é que podemos olhar para o âmago de nossa alma e, estando defronte com o mundo, indagarmos: o que é que eu fiz, o que é que estou fazendo com minha vida? Ora, para que tal indagação tenha sentido é preciso que exista uma vida que tenham sido vivida um bom tanto.

Quando chegamos na idade da razão, recordamos com um certo ar de amargor, todas as sandices que fizemos em nossa mocidade, todas as tolices que dissemos àqueles que apenas queriam o nosso bem e que, hoje, vemos como realmente eram: tolices e sandices dum adolescente birrento que imaginava-se mais importante que todas as gerações que o antecederam. Mais importante, inclusive, que seus gentis genitores que tão amorosamente zelaram pelo crescimento de tão ingrata criatura.

Todavia, o que salta às vistas no mundo hodierno, é o fato de termos inúmeras pessoas que estando na idade da razão, voltam suas vistas para o passado e vêem, nas sandices e tolices pretéritas, não um motivo para envergonharem-se diante do espelho da consciência e perante o olhar onisciênte da eternidade, mas sim, uma saudosa recordação de tempos impetuosos e desafiadores. Tempos em que os limites eram apenas medidos pela flexibilidade de nossa ousadia e pela tenacidade de nossa petulância.

Nestes casos, que não são poucos, a idade da razão chegou da mesma forma que ela, a razão, desistiu de iluminar o caminho trilhado por essas almas. Estes são os infindáveis casos de adolescentes tão tardios quanto persistentes. Pessoas que avançam nos anos vividos e que permanecem púberes no que se refere a experiência adquirida.

Tenho cá com meu botões que a régua regia para mensurarmos nossa madurez seria a capacidade de sentirmos vergonha daqueles atos que antanho nos levava a estufar o peito com um orgulho pueril. Vergonha essa que, por sua deixa, move-nos a mudar de postura perante a vida já vivida e, principalmente, a nos converter para, de fato, vivermos os dias que estão por vir.

Um modesto exemplo do que estamos afirmando é a incapacidade de silenciar que habita os lábios juvenis e que continua a governar as bocas cheias de dentes de pessoas que temem, por demais, esperar a morte chegar. Ora, que um garoto seja inquieto, falante e mesmo insolente, chega a ser até compreensível, mesmo que inadmissível. Todavia, diverso disso, é vermos pessoas que já ultrapassaram os umbrais cronológicos da razão e que continuam a portar-se de modo similar à um guri borra-botas.

Creio que um dos sinais mais flagrantes da degradação de nossa sociedade não é a mulecada que porta-se desde modo tão indolente quanto insolente, mas sim, uma geração biologicamente madura que insiste em vestir-se (ou fantasiar-se) de rapaizinho, agir e portar-se com tal e, deste modo, justificando os maus-modos dos mais jovens com o exemplo decadente que estão a lhes apresentar. Isso sim, meu caro Watson, é o supra-sumo da degeneração de uma sociedade. O que virá depois disso só Deus sabe e, desde já, rogamos a todos os Santos que intercedam junto ao Altíssimo que nos guardem desde mal que está sendo cevado pelas mãos de nossa indigna geração que não quer crescer.

Pax et bonum
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