NEM TUDO É RELATIVO MEU CARO WATSON

Escrevinhação n. 1012, redigido em 17 de junho de 2013, dia de São Rainério de Pisa.

Por Dartagnan da Silva Zanela


O tal do alargamento dos direitos virou uma grande farra aos moldes do “faça o que tu queres, pois é tudo da lei”, no velho estilo da Nova Thelema de Aleister Crowley. No fundo, tudo bem ponderado e medido, a elevação do relativismo a princípio mestre para edificação de normas de conduta social é simplesmente uma inversão diabólica.

Sim, há inúmeras manifestações humanas que são relativas histórica e socialmente. Entretanto, como bem nos lembra Gustavo Corção, em seu livro “Dois amores, duas cidades”, que as categorias universais estão presentes em todas as culturas, independente das contingências. Por isso mesmo, não deveríamos jamais elevar as especificidades culturais (ou inventar outras tantas, de acordo com as ventanas do momento) ao patamar de categoria universal simplesmente porque não são. Mas assim agimos por termos aderido a esse vício cognitivo de apenas valorizar as diferenças em detrimento das semelhanças.

Por sua deixa, C. S. Lewis, em seu livro “A abolição do homem”, nos chama a atenção não para as características específicas das mais variadas religiões existentes, mas sim, para o patrimônio moral comum de todas elas que, por sua deixa, refletem um elemento estruturante da natureza humana. Elemento este que é literalmente, ao mesmo tempo, tão desprezado quanto subvertido, por todas as hostes relativistas reinantes.

Outra figura indispensável para nos aconselhar sobre esse assunto é Frithjof Schuon que, em seu livro “La unidad trascendente de las religiones”, ensina-nos que todas as religiões têm um mesmo fundamento metafísico. Todas partem dum mesmo elemento estruturante, divergindo apenas nos caminhos apontados para a salvação da alma que, por sua vez, são condicionados pelo contexto cultural em que as revelações ocorreram. Se nos permitirem um exemplo análogo: a culinária do mundo todo é duma grande variedade de sabores, mas todas combinam sempre, de modo harmônico, temperos, proteínas, carboidratos e gorduras de acordo com os elementos locais disponíveis. O mesmo pode-se dizer dos elementos de ordem moral com suas peculiaridades sempre estabilizadas por um eixo comum que reflete a natureza humana universal.

Somente uma pessoa muito obtusa, ou muito mal intencionada, não é capaz de perceber isso. Aldous Huxley, em seu livro “A Filosofia Perene”, nos chama a atenção para este fenômeno, dos valores morais perenes, que se fazem presentes em todas as sociedades humanas. Neste livro, da lavra do autor de “O admirável mundo novo”, o mesmo faz uma comparação entre as sentenças proferidas por sábios de várias tradições para demonstrar há presença deste patrimônio moral universal e que, negá-lo, seria o mesmo que abolir a natureza humana.

O que espanta é que isso é algo conhecido desde os tempos imemoriais da humanidade e desprezado atualmente. Por exemplo, no teatro grego, na peça “A Antígona” de modo especial, apresenta-se como tema central o conflito entre as leis escritas (contingentes, locais) e as leis não-escritas (universais). A alusão a essa peça de teatro e a temática por ela abordada faz-se presente em todo em qualquer manual de introdução ao estudo dos Direitos Humanos. O que se esquece, ou desdenha-se, é o fato de que as leis não-escritas são de origem divina e, por isso, refletem o que há de perene no ser humano.

Porém, atualmente, não é mais o patrimônio moral comum da humanidade, a fonte da dignidade humana, mas sim, a pequenez dos desejos, tão banais quanto mundanos, que se fazem reger na base do faça o que tu queres, pois, no Brasil, em breve, gostemos ou não, será toda a lei.

Pax et bonum
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