O MAIS FRIO DOS MONSTROS FRIOS


Escrevinhação n. 1004, redigida em 29 de abril de 2013, dia de Santa Catarina de Siena, quinta semana do Tempo Pascal.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Creio que todos já assistiram ao filme “Advogado do diabo” (1997), dirigido por Taylor Hackford. No correr da trama, o advogado Kevin Lomax (Keanu Reeves) pergunta a John Milton (Al Pacino), porque ele optou pelo trabalho com as leis. E este respondeu, com um sorriso malicioso: porque a lei nos permite fazer tudo. Nunca esqueci essa passagem.

Não sou um especialista da seara das leis. Aliás, estou à milhas de distância disso. Porém, como um reles mortal, quando volvo minhas vistas para o mundo hodierno não tenho como não vislumbrar nas palavras do demônio da película citada uma verdade patente sobre os caminhos e descaminhos que estamos trilhando.

A letra da lei nos liberta quando esta corresponde à estrutura ontológica da realidade. Ou seja, a lei liberta quando reflete, mesmo que palidamente, a verdade que necessariamente transcende a contingência material. Trocando por dorso, o fundamento último que vivifica a letra é Deus. Sem o reconhecimento de Seu poderio ela é nula.

Quando apontamos isso, temos em mente a sanha legislativa que toma conta de todos nós no intento de sempre desejar a criação de novas garantias e direitos que, ao invés de assegurar a ordem da liberdade, apenas garante o império da arbitrariedade daqueles que podem esgueirar-se pelas infindáveis fendas do entulho legislativo.

Em todas as esferas, várias vozes pronunciando-se a respeito da necessidade da criação duma lei para isso ou para aquilo, como se criação de novas leis em uma sociedade que desdenha a transcendência da realidade fosse resolver algo. Aliás, para ser franco, esse impulso legislativo nada mais é do que um sintoma da soberba e da vaidade que tomou posse da alma do homem moderno.

Por essas e outras que em sua obra “Sobre el poder”, Bertrand de Jouvenel nos adverte para o fato de estarmos muito distante do crescimento da liberdade. Segundo ele, a única coisa que cresceu foi o poder do Estado sobre a sociedade. Seja num regime democrático, seja numa ditadura autoritária ou totalitária, o sentido da história moderna reside no crescente aumento dos tentáculos estatais que regulamentam toda ordem material e moral, orientando as ações individuais em torno do qual se organiza a vida de todos. Tal seu gigantismo que praticamente tornou-se inconcebível a idéia de sua morte.

Ora, se não mais é Deus o fundamento último de toda realidade, o que fará às vezes Deste? Ora, é só perguntar: quem foi tomando o Seu lugar conforme Ele foi sendo riscado do horizonte de consciência do homem moderno? O Estado. Aliás, como bem nos lembra Chesterton, um dos fenômenos mais marcantes da modernidade é a divinização do Estado (e de seus governantes) que não media, e não mede, esforços para tornar o seu poder total.

Por fim, mais uma vez, não temos como discordar do personagem interpretado por Al Pacino, quando este nos lembra ao final do filme mencionado que a vaidade é o seu pecado preferido (e nosso também). Não é por menos que dia após dia nos perdemos mais e mais em nossa vã tentativa de sermos melhores que o Criador. Não é por menos que o monstrengo Estatal dia após dia está a nos devorar com nosso festivo consentimento.

Pax et bonum
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