DA SOBERBA DOS CORAÇÕES BONZINHOS


Escrevinhação n. 1006, redigida em 10 de maio de 2013, dia de Santo Hugo de Cluny e Santa Maria Bertilla Boscardin, sexta semana do Tempo Pascal.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Bronisław Malinowski ensina-nos que para entender um selvagem devemos tornar-nos ele para ver o mundo através dos seus olhos. Esse processo de empatia antropológica, assim chamado por Gilberto Freyre, pode nos ser muitíssimo útil na compreensão do outro. Um olhar participante sobre os dramas e os dilemas de outrem, não apenas um julgamento através dum olhar externo, todo enquadrado nos recortes duma perspectiva pseudo-científica.

Podemos realizar esse exercício, com a devida seriedade, ao menos imaginativamente o que, em si, já nos auxiliaria muito no entendimento de inúmeros problemas que integram a vida e, principalmente, a nos ver como parte destes problemas e não como uma solução demiúrgica desdenhada injustamente pela sociedade.

Na maioria das vezes, com nossa pose doutoral e/ou bacharelesca, condenamos veementemente tudo a partir de meia-dúzia de esquemas mentais prontinhos que absorvemos antanho e que, repetindo-os, nos dão a sensação de que estaremos passando uma imagem de pessoas boazinhas e, acima de tudo, inteligentes. Do mesmo modo, cultivamos um grande sentimento de repulsa em relação a outras palavras que, de forma similar as primeiras (os chavões do bem), refletem pouco ou nada das realidades que elas se referem, porém, nos dão aquela epidérmica sensação de que estas são do mal.

Um bom exemplo seria a atuação dos policiais na sociedade brasileira. Creio que seria interessante nos colocarmos no lugar destes seres humanos (lembre-se que eles o são) com seus dilemas, dramas, sofrimentos e medos. Aliás, você já parou pra pensar que um policial tem medos e angustias que advém de seu ofício e das conseqüências deste para sua família?

Bem, imaginemo-nos como integrantes de uma investigação policial que tenha por objetivo acabar com uma organização criminosa que, por sua deixa, tem seus tentáculos dentro do Estado e contando com muitos bem-feitores junto aos formadores de opinião. Imagine as inúmeras frustrações que estes homens e mulheres acalentam em seu íntimo. A essa dor, banhada no lodo da corrupção Estatal e no desdém da sociedade podemos, com tranqüilidade, dar o nome de solidão heróica.

Alguém poderá dizer ao autor destas turvas linhas para ele colocar-se no lugar do criminoso. Ora, se assim o for, pergunto: apontar um revolver para o rosto de uma pessoa anônima para roubar-lhe o salário ou algo de menor importância material, o que é? Que nome dar-se-á para esse gesto? Os motivos podem ser muitos, mas, independente deles, isso chama-se crueldade.

Também podemos nos colocar no lugar da vítima e de seus familiares e perguntar: qual a palavra que melhor retrata o sentimento dessas almas. Resposta: impotência. Isso mesmo! Impotência dum cidadão honesto e humilde que, nos palcos da vida, tal qual o policial, não tem ninguém para falar na defesa de seus humanos direitos.

Negar-se a enxergar isso, com o perdão da palavra, não passa dum rasteiro cinismo cúmplice que muitíssimo mais se preocupa com sua imagem boazinha do que com a dureza dos fatos.

Pax et bonum
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