ENTRE CHINELAS E AFAGOS


Escrevinhação n. 1003, redigida em 23 de abril de 2013, dia de São Jorge, quarta semana do Tempo Pascal.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Me pego muitas vezes, cá com meus alfarrábios, digladiando com algumas questões e, confesso, não consigo encontrar uma resposta clara para a maioria delas. Vislumbro apenas, freqüentemente, um cenário cada vez mais complexo em que as questiúnculas se apresentam e com ele, uma gama muito maior de inquietações que antes não se faziam presentes. É, quem manda procurar chifres em cabeça de cavalo?

Uma dessas questões é sobre o ato de punir. Pergunto aos meus botões: punir é um ato de misericórdia ou de sadismo? Soa estranho aos nossos ouvidos politicamente corretos afirmar que punir possa seja um ato de misericórdia, mas o é. O excesso e bem como a leniência no punir, sim, são atos sádicos. No primeiro caso por nos deleitar com o sofrimento gracioso do outro. No segundo, em nos jubilar com o gradativo descambar do outro. Num e noutro caso, há uma dose indiscreta de crueldade inconfessa.

Quando devidamente aplicada, uma punição é um ato de misericórdia. Numa primeira dimensão, temos a sinalização do bem ferido através da pena devidamente ponderada e aplicada, como uma espécie de estalo que nos desperta do torpor. Numa segunda dimensão temos um sinal dado à sociedade que lembra a todos que certos atos não são tolerados, apresentando assim os sadios limites do convívio social.

Penso também que não podemos nos esquecer da parte lesada. Se as duas primeiras dimensões são devidamente atendidas, a terceira, que é a vítima, vê-se acolhida com a sinalização de que ela, enquanto pessoa de bem, é respeitada em sua dignidade ferida. Não que ela terá o mal que lhe foi auferido reparado, ou que a justiça será plena, mas que, a sua dor foi respeitada.

Por essas e outras que punir é um ato misericordioso. Um ato de misericórdia para com o transgressor, para com a vítima e, principalmente, para com toda sociedade. Seja no âmbito, familiar, escolar ou societal, a referência as fronteiras do tolerável e do intolerável devem ser razoavelmente claras. Deveriam, mas como todos nós o sabemos, não o são. E aí que se desenha diante de nossas vistas esse cenário pintado com os mais variados tons de desesperança.

Ora, dizer que não há em nosso país uma cultura do “não dá nada” é querer tapar o sol com a peneira. Fechar os olhos para isso, insistindo na impostura de bom-moço, é de uma crueldade que, confesso, é difícil de mensurar.

Creio, francamente, que deveríamos nos colocar, empaticamente, em certas situações humanas como a dos pais que tem seu filho assassinado, duma mulher violentada e, porque não, dos familiares dum policial morto no exercício de seu ofício e vermos que também há seres humanos neste lado da fronteira.

Diante deste cenário, não é de admirar que o desempenho escolar do Brasil seja um dos piores do mundo, perdendo para países como a Etiópia. Não espanta que no mundo, o número de usuários de drogas é estacionário e, no Brasil, cresce 10% ao ano. Não escandaliza-nos saber que nossa pátria é recordista em número de homicídios (50.000 por ano) e na precocidade sexual. Por fim, não nos escandaliza saber que 6.677 professores foram agredidos fisicamente em 2011.

Mas, deixe quieto, porque, como todos nós bem sabemos, isso tudo não dará nada, não é mesmo?

Pax et bonum
Site: http://dartagnanzanela.k6.com.br
e-mail: dartagnanzanela@gmail.com

Comentários