CONFISSÕES DUM OLHAR ANÔNIMO


Escrevinhação n. 998, redigida em 27 de março de 2013, dia de São Ruperto.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Penso que não há nada mais deprimente que vermos um indivíduo adulto, pleno de suas capacidades, choramingando, lamentando que a vida, no seu entender, não lhe regalou tudo aquilo que ele imagina merecer. Se formos francos, todos nós, vez por outra, acabamos por cair nesta esparrela. Tal fato, em si, já seria suficientemente vergonhoso. Porém, como todos sabem, há indivíduos que fazem do lamentar um estilo de vida. Aí, nestes casos meu amigo, o vexame não é pouco.

O ato de reclamar, que hoje foi elevado a uma categoria cívica, nominada pela elegante alcunha de reivindicar, em si, não apresenta nenhuma qualidade excelsa se pararmos pra pensar. Aliás, lembro-me, com muita gratidão, dos ensinos a mim ministrados por meus pais que me diziam, quando infante, que não há mérito algum em legislar em causa própria. Podemos resumir a lição, que sempre guardei comigo desde meus tempos de guri, nos seguintes termos: a dignidade fundamental de um indivíduo não está no ato (depre)cívico de reivindicar. Exigir que outrem nos tutele é algo que exala tardios ares púberes. O cumprimento de nossos deveres é que nos elevam em dignidade e verdade.

Doutra parte temos aqueles que, por sua posição de destaque (elites de toda ordem), não se distinguem de modo algum no quesito descrito acima. Para ser franco, é mais vergonhoso ainda, visto que, a partir do momento em que um indivíduo encontra-se numa posição política, econômica, social ou de prestígio, goste ou não da idéia, está investido de certas responsabilidades morais para com os demais membros da sociedade.

De mais a mais, esse é o sentido da existência de uma elite. Ser membro duma significa que as obrigações, os fardos de seus membros, são necessariamente maiores em relação aos demais membros da sociedade, como nos ensina a Sagrada Escritura, quando esta nos lembra que àqueles que muito foi dado, muito será cobrado.

Do mesmo modo, tanto Leão XIII, em sua Encíclica Rerum Novarum, como Bento XVI, na Deus Caritas Est, afirmam o princípio de que todo aquele que foi abençoado materialmente tem um dever moral para com aqueles que se encontram desamparados. O cumprimento, abnegado, deste dever, em si, é uma alegria e não devem ser motivada, jamais, por uma mediana atenção da opinião pública ou das potestades Estatais. Não mesmo. Estes devem ser feitos por amor àquele que está diante de nossas vistas. Nada mais, nada menos que isso. 

Por sua deixa, o Papa Francisco, em sua homilia do dia 24 de março nos lembra que amamos muito mais nossos ganhos que ao próximo e, conseqüentemente, Deus, nesta historieta, acaba ficam em enésimo lugar, quando lembrado. Infelizmente, nossa egolatria em misto com a Estatolatria reinante nos convida a esquecer que a realidade é muito mais densa que nossos mimados desejos, mais preciosa que todos os objetos de consumo que circundam e, por fim, muito mais ampla que as limitações tirânicas das potestades Estatais.  

Por fim, a regra latina que afirma que devemos dar, a cada um, o que lhe é devido, nesta cultura do mútuo choramingo, sofreu uma atualização ou, como direi, um alargamento, rezando que se deve dar, a cada um, o que nos é querido. Trocando por dorso: queremos receber toda ordem de regalos materiais, devidos ou não, desde que não sejamos obrigados a nos responsabilizar por nada e, se possível, por ninguém.

Pax et bonum
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