A VERDADE DUM CORAÇÃO ENFERMO


Escrevinhação n. 1000, redigida em 08 de abril de 2013, dia da festa da Anunciação do Senhor, de Santa Júlia Billiart e de Santa Cacilda.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Os anos passam como tudo o mais. As gélidas mãos de Cronos, que por nossa face deslizam, deixam suas marcas próximas às janelas da alma para que compreendamos que tudo que um dia alvorece irá, cedo ou tarde, crepuscular. A recusa em aceitar a passagem dos anos como um dos fatos mais belos da existência é uma das comédias mais tristes que já foram encenadas nos palcos da vida. Tristeza risonha que hoje, muito mais que em qualquer época, representa incansavelmente as infindáveis reprises deste enfadonho espetáculo.

Envelhecer é preciso, lembra-nos Nelson Rodrigues. Sim! Se recusamo-nos a envelhecer nos tornamos pessoas pouco generosas, nada heroicas e tão pouco humanas, tal qual vemos atualmente pelas ruas, nas redes sociais, nos protestos junto ao Congresso e em nosso mórbido cotidiano que, mesmo amarelado pelos dias que se foram, continua infecto com as utopias pueris de antanho.

Triste é a vida da alma que vê sua carne perecer sem permitir-se amadurecer. Triste é o homem que teme sacrificar o rapagão que habita em seu coração para que o adulto nasça. Não que ser jovem seja ruim. Nada disso. A questão é que uma árvore, frondosa ou não, só mostra seu viço se a semente morre e o caule envergar. Negar-se a isso é recusar às sementes que estão por vir à visão daquilo que podemos ser.

Lembro-me que em minha porca juventude desejava que aqueles revoltos dias fossem perenes. Imaginava que iria alentar aquelas utopias tolas, em misto com outras fantasias parvas, pelo resto de minha vida. Imaginava que o mundo não era melhor simplesmente por não estar em mãos similares às minhas. Coisa de moleque mesmo.

Os anos devem passar para que aprendamos, mesmo que à duras penas, que aquilo que chamamos, quando jovens, de justiça, heroísmo e sabedoria, não passava de brutalidade, covardia e orgulho. Ora, que sabedoria, justiça e heroísmo há numa multidão que enxovalha uma única pessoa e cala-se frente a uma multidão de escândalos? Confesso: esses tipos (célebres ou anônimos), não me representam com seu linchamento midiático show.

Se formos francos (sei que é difícil), reconheceremos que esse tipo de impostura, hoje, se tornou regra geral. A tolerância que se faz reinar nestas plagas, no uso dissimulado de dois pesos e muitas medidas, não é hipócrita. É cinismo puro e simples. Infelizmente não são poucos os que insistem em posar com estas vestes nesta corte de muitas majestades e que chamam a esse circo de república cidadã.

Doravante, amadurecer, antigamente, era sinônimo de aprendizado adquirido com a experiência dos anos que lapida a personalidade do indivíduo. Hoje, não mais. Basta curtir o momento, exibir uma pose de indignação, fazer uma ceninha de bom-mocismo, ser a favor de qualquer coisa modernosa e pronto! Tornamo-nos cidadãos críticos.

Se José Ortega y Gasset hoje vivesse, daria a nós o mesmo conselho que deu, em seu tempo, à juventude espanhola: “Prestad noblemente vuestro auxilio a los que son los menos contra los que son los más.” É claro que ele não seria compreendido, pois reconhecer a enfermidade de nossa alma seria o primeiro passo para curá-la que, necessariamente, deve passar pela imersão nas águas da verdade oculta em nosso coração, para que a luz não mais seja odiosa aos nossos adoecidos olhos.

Pax et bonum
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