NA ENCRUZILHADA DO DESTINO


Escrevinhação n. 995, redigida em 11 de março de 2013, dia de Santo Eulógio.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Monteiro Lobato, quando estava no interior, imerso em bucólicos ares, afirmava que lia compulsivamente só por birra, de modo similar a um bêbado em encharca as vísceras para distanciar-se da mesquinhez que o circundava. Embebia sua alma com o licor das letras todo santo dia. Destilava incansavelmente o melaço de sua escrita em um ritmo todo seu de aprimorar-se.

Muitos, como o pai do Sítio do pica-pau amarelo, preferem o silêncio de um retiro do mundo nele estando, para cultivar amorosamente a cultura, a terceira natureza humana. Através dela, da cultura, vemos os vários reflexos de nós nas faces dos muitos “eu” possíveis que se apresentam mediante nossas escolhas tão livres quanto graciosas. Nesta gratuidade de nosso devir pagamos por todas nossas escolhas.

Doravante, como nos lembra Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Athayde), a cultura revela três atitudes fundamentais ao homem: a que o liga a terra (economia), a que o liga a si e com os outros homens e a que o religa a Deus. Por isso, a cultura representa a plenitude do humano na sua condição de ser físico, moral, intelectual e espiritual. É através desta terceira natureza que realizamos as nossas mais elevadas potencialidades.

Em vista disso, muitos nutrem a crença de que tudo o que fazemos é, de certo modo, pré-determinado pelo meio, pelas forças que nos influenciam dos mais variadas formas. Todavia, não é assim que o fandango segue. Somos influenciados, sim, pelas mais variadas forças, desde aquelas de ordem genética até as obras de engenharia social que abundam no mundo atual, porém, não somos determinados por elas. São nossas escolhas, decisões e omissões, que dão força a essas influências.

De mais a mais, o que torna tal crença curiosa é o fato de seus proponentes romperem com todo peso que eles afirmam determinar nossa humanidade. Ora, das duas, uma: Ou eles são sobre-humanos, tocados pela Divina Providência, ou simplesmente reles orgulhosos prepotentes.

É muito cômodo afirmar que somos apenas objetos inermes. Entretanto, tal afirmação, na inteireza de suas palavras, revela apenas o patético que há em nós. Preferimos, muitas vezes, nos escorar em uma muleta ideológica e, desde modo, esquivarmo-nos de nossa integral responsabilidade pelo destino advindo de nossas escolhas.

Ao nos fazermos de leitão pra mamar, seja de pé ou deitado, estamos apenas permitindo que forças mundanas, alienantes por sua natureza, nos arrastem para longe de nosso centro existencial.

Contrapondo-nos a isso, não estaremos mudando o mundo, obviamente. Apenas adolescentes tolos e adultos sínicos se permitem arrastar por essa leviandade. Todavia, se estivermos cônscios de que temos no âmago de nossa alma, e em nosso entorno, forças em luta para dilacerar-nos, poderemos, quem sabe, realizar de modo mais lúcido e responsável as escolhas que integrarão e moldarão nossa personalidade, de modo similar ao nosso bravo e silencioso Monteiro Lobato.

Pax et bonum
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