A FIGUEIRA DE PÚTRIDOS FRUTOS


Escrevinhação n. 994, redigida em 04 de março de 2013, dia de São Casimiro.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Lembra-nos Hayek que a humanidade foi civilizada a muito contra gosto. De fato, se formos capazes de fazer um sincero exame de consciência, com candura reconheceremos que as lições mais importantes que nos eram ministradas foram aprendidas em meio a muitos beicinhos.

De todas, aprender a responder por seus atos e pensamentos, pelas conseqüências advindas destes, é uma das lições que cada um de nós mais resistiu em assimilar. Alguns se recusam a isso a vida toda e outros, transformam o esquivar desta num estilo de vida. Tudo isso junto e misturado seria a cultura do “não fui eu”, como nos adverte Olavo de Carvalho que, infelizmente, é a pedra angular da sociedade brasileira atual.

Ora, a cultura da escusa é a cultura da condescendência. Tudo deve ser reconhecido como aceitável para que os brios infantilizados do cidadão não sejam vilipendiados em seu direito de não responder por seus atos. Por essa razão, Pascal Bruckner, ensina-nos que “nada nos autoriza a dividir a humanidade entre culpados e inocentes, pois a inocência é o lote das crianças, mas também dos idiotas e dos escravos. Um povo que nunca se sentiu responsável por seus atos perdeu todas as qualidades que lhe permitem ser tratado como semelhante”. Resumindo: é um povo que perdeu o tal do respeito.

Evidentemente temos uma grande tragédia no horizonte quando vislumbramos esse tipo de mentalidade alicerçando, praticamente, toda uma geração. Geração essa que vem sendo educada na base da irresponsabilização pessoal, a projetar num outrem, humano ou imaginário, suas mínimas e máximas culpas.

Para evitarmos divagações furibundas, meditemos apenas sobre um ponto: o fato dos infantes muitas das vezes serem, como direi, transviados e amorais, mal-alfabetizados e incultos, é a culpa de quem? Todos se esquivam e justificam o erro nas costas uns dos outros. A família responsabiliza os professores, estes as famílias, ambos o governo e este a todos. Quanto aos mancebos, nem mesmo são lembrados de seus deveres elementares.

Essa patacoada é antiga. Todos adoram um discursinho auto-vitimatório para poder ficar na confortável faixa da anônima irresponsabilidade pessoal. Entretanto, não é assim que se edifica uma sociedade sadia moralmente. Por esse viés forma-se apenas uma massa submissa que facilmente verga sua cabeça para qualquer um que finja ser o seu protetor.

Carrego nas tintas em minhas considerações? Então, por caridade, visite o mofado tribunal de sua consciência e verifique quantas vezes, verdadeiramente, nos colocamos como responsáveis pela tragicomédia atual de nossa sociedade? Quantas vezes falamos, para nós e para os outros, “não fui eu”? Quantas vezes insistimos em agir como infantes quando as marcas em nossa face exigem atitudes dum adulto?

Por essas e outras tantas que, como nos lembra Levi-Strauss, em Tristes Trópicos, hoje, mais do que ontem, vemo-nos mergulhados na barbárie sem ter, ao menos, sido civilizados. Ah! Mas é claro que a culpa não é nossa, não é mesmo?

Pax et bonum
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