MINHA PÁTRIA É MINHA LÍNGUA


Escrevinhação n. 987, redigida em 13 de janeiro de 2013, dia de Santo Hilário de Pontiers.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Certa feita, perguntaram a Graciliano Ramos se ele tinha o hábito de ler dicionários. Este, por sua deixa, respondeu afirmativamente. Não apenas ele. Inúmeros mestres na arte da esgrima com pena e tinteiro o faziam. Mas por quê? Por pedantismo? Para fazer pose de sabido? Creio que não. Segundo as palavras do autor de Angústia, assim deve-se proceder para conhecer o peso e o valor de cada palavra utilizada por nós para sabermos qual palavra é a mais apropriada para expressar algo.

Sou franco, sofro com a língua de Camões, por isso a amo com todas as forças de meu coração e, por essa razão, esforço-me em crescer com o aprendizado dela e não diminuí-la à altura de minha mesquinhez.

Mas, por Deus, por que querer bem as letras? Porque as palavras são pontes que ligam os caminhos da vida, são chaves que abrem as portas ao conhecimento de realidades que até então nos eram desconhecidas. Elas, as palavras, são ferramentas que nos auxiliam em nossa jornada por esse vale de lágrimas.

Naturalmente, se tivermos em nossa algibeira um rico vocabulário, isso não nos garantirá a obtenção de uma excelsa sabedoria. Doravante, desprezar esse tesouro da lusa língua, definitivamente, não nos beneficiará em nada.

Por essas e outras, Johann Goethe declarava que ninguém sabia o quanto de tempo e de fadiga lhe custou para aprender a ler. Ele trabalhou nisso por 80 anos e não podia dizer que o tinha conseguido. Ora, somente quem ama a procura pela verdade compreende a alegria de aprender. Somente quem se rejubila em conhecer entende o real trabalho que há por trás dum aprendizado sincero, mesmo que seja do significado de uma única palavra. Aliás, quem ama a Verdade sabe que é com palavras que pensamos, comunicamos, que nos relacionamos, aprendemos, lutamos e nos angustiamos. De mais a mais, como nos lembra Drummond “lutar com palavras/ parece luta vã/ entretanto lutamos/ mal rompe a manhã”.

E, seguindo por essa vereda, Antonio Olinto, outro grande mestre das letras (seus livros são leitura obrigatória para quem diz amar a cultura africana), afirmava que desde muito cedo aprendeu que quem entende as palavras entende a vida. Tal conhecimento, segundo o referido imortal, permitiu-lhe o acumulo de um capital simbólico precioso que afetou o seu futuro. Considerava-se um colecionador de palavras! Dizia Olinto: “quanto mais palavras habitavam meu cérebro, maior era o impacto na minha forma de pensar”.

Obviamente que para poder-se acumular um tesouro desta estirpe é necessária uma boa dose de disciplina, dedicação, imaginação e perseverança. Porém, atualmente, quem, de fato, deseja cultivar essas virtudes para obter esse tipo de preciosidade? Quem?

Talvez, toda essa conversa deve ser alguma variante dum preconceito linguístico de minha parte, não é mesmo? Ou, quem sabe, seja um sintoma da falta de amor à Verdade da parte daqueles que creem que a fala miúda cotidiana é mais significativa que todo o patrimônio de nossa língua. Dum jeito ou doutro, você decide qual será a sua pátria.

Pax et bonum
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