NÃO ADIANTA NEGAR


Escrevinhação n. 979, redigida em 22 de novembro de 2012, dia de São Clemente I, de Santa Felicidade e sete irmãos e de São Columbano.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Por favor, não faça beicinho. É perda de tempo. Meu coração não mais se deixa comover com esse tipo de teatrinho. Mas, afinal, do que estamos falando? Ah! Sim, desculpe-me por ter colocado a carroça à diante dos bois. É difícil não nos confundir tendo de testemunhar a loucura presente.

Bem, vamos ao ponto. A maresia “informativa”, meu caro, em seu estado bruto, apresenta-se, a qualquer um, sem fazer a menor cerimônia. Arromba nossa alma e, nosso universo pessoal, de tanto ser invadido com uma gama tão ampla quanto disforme de informações que nos acostumamos a ficar em um constante estado de dissimulação, com aqueles toscos ares de quem está à par de tudo para melhor encobrir nossa confusão interior.

Graças aos canais de televisão, as redes sociais e a antiguíssima roda de escarnecedores - círculo de colegas - edificamos em nosso íntimo não apenas uma falsa impressão da realidade, mas sim e principalmente, de nós mesmo. Na verdade, no fundo, o indivíduo moderno pouco se importa com o que está ocorrendo a sua volta ou no mundo. Quando demonstra preocupações desta monta, é por pura afetação, porque o que realmente lhe interessa é ele mesmo e a imagem que irá apresentar diante de seus iguais.

Imagem é tudo. Conteúdo e substância em um mundo partilhado por pessoas que apenas curtem seus umbigos, um luxo dispensável.

É o reino de Narciso. Estamos todos nele, principalmente, aqueles que se consideram maduros, demasiadamente preocupados com o seu mundinho pessoal que, naturalmente, tem essas preocupações miúdas transmutadas em questões de ordem pública em suas conversas estereotipadas e cansativas. Conversas essas sempre tecidas com aquela pose doutoral, naquela entonação de voz de quem (ui!) sabe do que está falando, parlando sempre para um grupo de pessoas que, por coincidência, vive na mesma atmosfera de fingimento.

Bem, é por isso que não adianta fazer beicinho. Se a mensuração do amor que devotamos ao conhecimento e aos bens culturais superiores reflete a envergadura de nossa alma, não há exagero algum em concluir que a brasílica alma diplomada vive minguadamente de subnitrato do pó de dejetos culturais.

Se prestássemos mais atenção ao conteúdo de nossas conversas, se atinássemos mais nossa percepção para as palavras que saem de nossa boca e bem como para aquelas que gentilmente permitimos adentrar em nossos ouvidos, pensaríamos duas vezes, no mínimo, para chamar alguém de estulto, ou coisa do gênero.

Somos uma sociedade que não gosta de ler, mas que idolatra as confabulações fiadas. Somos pessoas que imaginam saber muito sobre qualquer coisa sem nunca ter amado o conhecimento d’alguma coisa. Por isso a seriedade fingida é geral. Não adianta negar.

Pax et bonum
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