DOIS EXEMPLOS E UMA LIÇÃO


Escrevinhação n. 983, redigida em 25 de dezembro de 2012, dia do Santo Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Muitas são as imagens que carregarei deste ano que está por findar. Destas, duas gostaria de partilhar. Imagens da intimidade do meu lar que, penso, carregam em sua cotidianidade uma valia que eu não tenho o direito de ocultar no recôncavo de minhas lembranças.

Minha pequena filhota Helena, neste ano, começou a falar suas primeiras palavras. Falar naquele linguajar que, num primeiro momento, apresenta-se de forma hermética, mas que, gradativamente, com a atenção necessária, conseguimos reconhecer nos sons confusos as pontes que ligam os significantes aos significados que dão forma aos signos do vernáculo que, gradativamente, está formando o cabedal de instrumentos do universo da pequenina.

A alegria de estar sendo compreendido pelos outros, o júbilo de estar agindo sobre o mundo por intermédio de palavras que ligam os desejos ao mundo e às pessoas que nele se encontram. Este é um dos muitos milagres da existência humana.

A segunda imagem, também é dum infante. De meu filho primogênito. Johann é seu nome e, perseverança, sua profissão. Sua curiosidade é um mapa. Os conselhos meus e de minha amada a bússola. Porém, às vezes, a bússola falha, sobrando-lhe apenas curiosidade perseverante.

Explico-me: ele colocou em sua cabecinha que iria aprender a resolver o tal do cubo lógico. Bem, nunca em minha parva vida resolvi esse enigma tridimensional. Decepcionado, disse-lhe que não poderia ajudá-lo, porém, lembrei-lhe que no youtube ele encontraria a ajuda de que precisava. Depois de algumas semanas de pesquisa, muita atenção e uma admirável dedicação, batata! Ele aprendeu e, em pouquíssimo tempo, já estava resolvendo o dito cubo praticamente de olhos vendados.

Coisas de pai babão! Estou sabendo. Mas não apenas isso. Veja só o quanto que em tenra idade os indivíduos literalmente refletem vividamente o que Aristóteles indica na primeira página da Metafísica ao mesmo em tempo que negamos a mesma sentença com o correr dos anos. É natural ao ser humano o desejo de conhecer. Sim, potencialmente todos têm. Todavia, também somos potencialmente inclinados a fixar nossa vida à segurança das rotinas vazias e alienantes (detesto essa palavra, mas é a única que me parece apropriada).

Esquecemos, com o tempo, esse regozijo do espanto jubiloso advindo do aprender. Preferimos a monotonia da repetição, das rotinas delirantes que apenas reafirmam nossa nulidade. Confesso que chega ser pavoroso ver a diferença que há entre a capacidade pujante de aprender duma criança comparada com a de um indivíduo crescido. Do colo da mãe até, mais ou menos, sete anos, é simplesmente incrível o quanto se aprende. Dos sete em diante, é terrificante o declínio, chegando, em muitos casos, numa nulidade bestial.

É por essas e outras que o reino dos Céus pertence aos pequeninos. Apenas neles, e raramente noutros, o desejo pela Verdade é sincero, ardente e, acima de tudo, presente. Bem diferente de nós, não é mesmo?

Annum Faustum
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