A realidade como nós a conhecemos


Por Umberto Eco

Eu certamente já disse antes, mas direi de novo: um dos meus desejos é colocar um fim a esta coluna, ao menos em sua encarnação atual. Em intervalos de poucas semanas, eu tenho de conjurar um tema que seja atual, mesmo que meu desejo seja realmente reler a obra de Pinder e escrever uma crítica (um tanto tardia) de seus poemas. Em outras palavras, eu gostaria de falar sobre livros que talvez tenham sido esquecidos, mas que sinto serem “atuais” para serem lidos de novo. Poderiam ser livros de séculos atrás, apesar de que também gostaria de discutir obras contemporâneas que demorei a ler. Afinal, nem sempre é possível se manter atualizado.

Recentemente eu li “O Imaginário”, de Jean-Jacques Wunenburger, que saiu na França em 2003 e explora a ideia do imaginário individual e coletivo. É difícil dizer o que é o imaginário coletivo, mas com base neste livro, nós podemos ao menos tentar esboçar uma teoria possível. O imaginário coletivo não pertence às construções da razão, como a lógica, matemática ou ciências naturais, mas sim a uma série de representações “imaginárias” que podem variar de mitos antigos até ideias contemporâneas que circulam em cada cultura e às quais todos nós nos adaptamos –mesmo que sejam fantásticas, errôneas ou cientificamente não provadas.

Se formos falar de um imaginário coletivo para mitos, certamente “Ulisses” de James Joyce é um exemplo que domina nosso modo de pensar. E há as visões sagradas, as narrativas que se infiltram em nossas experiências individuais: é por essa lógica que Pinóquio se torna mais real para nós do que, digamos, o príncipe Klemens von Metternich da Áustria, ou outros titãs da história. E em nossa existência cotidiana, pode ser mais fácil seguirmos as lições da vida fictícia de Pinóquio do que as da vida real de Charles Darwin. [continue lendo]