SABER (DES)RESPEITAR DEMOCRATICAMENTE


Escrevinhação n. 968, redigida em 02 de outubro de 2012, dia do Santo Anjo da Guarda.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Já ouviram falar da síndrome da Barbie perturbada? E a do Ken neurótico? Também não? Esse, meu caro, é um dos grandes males hodiernos. A tipologia é simples: o sujeito acredita piamente que pode fazer e dizer o que lhe der na telha, espalhar picuinhas, insultar pessoas com suas eructações verbais e ninguém pode, de jeito algum, cogitar algo em contrário.

Quando isso ocorre o bicho pega. Ficam bravinhos! Revoltados! Resmungam indignados que querem ser respeitados porque respeitam todo mundo. Bem, eis aí um claro sinal de psicose, não de senso de civilidade democrática. Quem nunca se deparou com tipos deste naipe? Confesse: quantas vezes você se portou deste modo?

A questão é que as vozes que muito reivindicam uma reparação para o tal do respeito ferido não sabem o significado deste devido a sua mórbida leviandade existencial. Veja bem, aquele que não sabe desprezar não sabe honrar. Não sabe honrar nem aos outros, nem a si próprio, muito menos a Deus, como nos ensina Johann Goethe. Ou, como diria Nietzsche, quem não sabe desprezar, não sabe respeitar.

Traduzindo: esse colóquio flácido de que tudo deve ser respeitado é de uma indignidade descomunal. Nivelar tudo num mesmo patamar demonstra uma incompreensão colossal de quais são os elementos estruturantes da realidade.

Eu, pessoalmente, tenho uma lista de coisas, atitudes e pessoas que desprezo com todas as forças de meu ser, porque tratar o indigno com reverência indevida é o caminho para corromper tudo que seja digno e bom. A compreensão disso, meu caro Watson, é algo fundamental para que não nos reduzamos a um nível bestial.

Da mesma forma que estes desprezam o tal do respeito, apesar de chorarem lágrimas retilíneas com essa palavra em seus lábios, também, em geral, ignoram o que seja uma democracia, palavra essa que eles evocam frequentemente para defender os seus hipotéticos brios afrontados. Tal fato seria cômico se não fosse trágico.

Pior! Tente explicar qualquer coisa que seja para esses indivíduos massificados e, curiosamente, mais uma vez, aparecerá o rosto de uma alma tão sensível quanto fútil que despreza as realidades mais elementares, as evidências mais gritantes, em nome de seu mundinho disforme que tem como centro uma vida turva e ignóbil dissimulada sob grossas camadas dum moralismo superficial maquiado com soluços forçados duma cidadanite histérica embebida num democratismo histriônico.

Por fim, enquanto não aprendermos a desprezar o que é desprezível, tanto na sociedade como em nós, nenhuma valia haverá em enchermos nossa boca para falar de respeito e democracia.

É por essas e outras tantas que a corrupção tornou-se tão banal em nossa sociedade que tem em seu corpo uma volumosa massa de pessoas extremamente sensíveis e reativas que nada refletem sobre seus valores, sobre as ações e, obviamente, pouco se importam com as consequências advindas destes. Por isso, elas “respeitam” tudo, menos o que  de fato deve ser respeitado.

Pax et bonum
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