RAZÕES DO TINTEIRO BRAVO


Escrevinhação n. 970, redigida em 09 de outubro de 2012, dia de São Dionísio e companheiros mártires, de São João Leonardi e de São Luís Beltran.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Um dado que a mim, ao menos, parece evidente é a grande fragmentação cultural e moral que todos temos de enfrentar interiormente. Tomar ciência deste fato é o primeiro passo para podermos ordenar a confusão existencial em que encontramo-nos imersos. Negá-lo é uma estultice psicótica da brava. 

Quando afirmo isso, não pense que comungo com aqueles que afirmam que devemos agir como bons-moços para, supostamente, ordenar esse caos íntimo. Fazer isso significa que estamos adotando como juiz de nossa alma a ordem externa da sociedade. Ordem essa que, em regra, é superficial, mesquinha e leviana. Eleger as aparências e o bom-mocismo fingido é a negação da própria personalidade e negá-la é fugir da vida intelectual.

Tornar-se uma pessoa de cultura, dedica-se a vida intelectual é literalmente o contrário disso. A pessoa culta despreza as aparências, repudia as afetações de superioridade e, principalmente, sabe quando o decoro no uso das letras deve ser quebrado. Há momentos em que um forte e furioso brado deve ser entoado.

É incrível como as pessoas supostamente ilustradas da sociedade contemporânea confundem afetação de superioridade moral com dignidade. Impressiona como pessoas diplomadas, ou detentoras cargos e poses, confundem o decoro no uso das letras com a Verdade que pode e deve ser revelada através delas. Não é por menos que a superficialidade impera em seus olhares trêmulos.

Por essas e outras que Frithjof Schuon, grande sábio muçulmano, ensinava que mesmo que um homem calmamente diga que dois mais dois sejam cinco e outro grite, furiosamente, que dois e dois são quatro, o segundo estará com a verdade, porque a verdade não é elegante, ela simplesmente é o que é. De mais a mais, como nos lembra Confúcio, nos seus Analectos, as palavras sinceras não são elegantes da mesma forma que as palavras elegantes não são sinceras e, sem sinceridade não é possível o conhecimento da verdade. Sem a busca pela verdade, o caráter, inevitavelmente, avilta-se.

De um modo geral, essas almas vivem em um simulacro de realidade, tendo o seu umbigo como centro cósmico, imaginando que essa miserável conjectura seja a totalidade do real. Elas sacrificam a procura pela verdade em nome de suas parvas opiniões e, por isso, torna-se mais do que compreensível que esse tipo humano imagine sempre uma pessoa culta como um indivíduo afetado, cheio de não me toque, incapaz de levantar a sua voz, agressivamente, para lembrar aos tolos que por mais que eles teimem dois mais dois sempre será quatro.

Pessoas que fiam sua caminhada por essa vereda, em regra, jamais compreenderão as razões de um homem de cultura com seu tinteiro cáustico, porque elas desistiram de procurar a verdade por fechar-se em seu mundinho delirante.

Pax et bonum
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