COLUNAS EM RUÍNAS

Escrevinhação n. 969, redigida em 30 de setembro de 2012, dia de São Jerônimo e de São Gregório, o Iluminador.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Certa feita Graciliano Ramos havia declarado que é bom que a população tenha a ilusão de estar participando das decisões políticas. É bom que, de tempos em tempos, nos pleitos eleitorais, alimente-se a ilusão de que a decisão tomada através do sufrágio das urnas seja fruto do endosso feito por cada um de nós.

Não me entendam mal, mas voto por si só não faz democracia. Sim, eleições legitimam o exercício do poder, porém, tão somente isso não faz uma república democrática.

De tempos em tempos, os munícipes vestem a camisa de um clã político, defendem-no, brigam por ele e, passado o pleito, tudo volta a encaixar-se devidamente para a monotonia diária de nossas vidas rotineiras. Todavia, esse cíclico eleitoral, de modo algum pode ser visto como a base sólida. Sim, faz parte, mas não é o elemento basilar e muito menos a argamassa que dá forma ao corpo duma república.

Antes de qualquer coisa, principalmente do voto, a sociedade deveria ter um corpo de cidadãos com uma sólida formação moral que sirva de base para os indivíduos julgarem os fatos políticos. Sem isto, fica-se literalmente à deriva como folhas secas jogadas ao vento facilmente levadas para qualquer direção, conforme o sopro do momento, como nos ensina Shakespeare.

A moral não é determinada pelo Estado, por partidos, por instituições ou entidades. A moral emana da experiência acumulada por um grupo humano através dos tempos e transmitida às gerações mais tenras. Novas experiências são vividas que, por sua deixa, possam a integrar o patrimônio partilhado por todos. Já as modificações constantemente realizadas através de novas legislações, atos administrativos, campanhas publicitárias e do ativismo de grupos de pressão apenas servem cinicamente para desnortear o indivíduo deixando-o sem uma referência sólida. 

Bem, é aí que a porca torce rabo. A moralidade do brasileiro, de um modo geral, é superficial, limitando-se as suas preocupações imediatas e a picuinhas vergonhosas. Resumindo a opereta, tornamo-nos uma sociedade onde os adultos portam-se como crianças mimadas que se magoam facilmente com qualquer olhar que lhes pareça hostil. Impressionamo-nos facilmente para não termos de compreender nada.

Sim, sei que isso faz parte da vida, mas jamais deve ser sua totalidade.

Outra coluna é a liberdade de expressão e o livre acesso à informação. Liberdade para dizer o que os seus olhos estão vendo e não apenas o que alguns querem que seja visto. Liberdade de informar e de informar-se sobre as questões que estão sendo debatidas para que possamos, de maneira razoável, tomar uma decisão.

Quanto à liberdade expressão e o livre acesso à informação, sejamos francos, são piadas de mau gosto. De um lado temos a obstrução ao acesso a informações fundamentais seja através da atividade cínica da grande mídia ou do patrulhamento ideológico descarado que é realizado pelos sequazes das igrejinhas rubras (e doutras cores) do Butantã. Do outro temos a desídia canhestra que infecta e deforma a alma.

Por fim, pergunto: o que é a soma de muitos votos emitidos por almas desprovidas de boa-vontade e banhadas num simulacro de liberdade? É bem isso que você está vendo. É bem isso que eu e você fizemos.

Pax et bonum
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