DEMOCRACIA DE MEIA-PATACA


Escrevinhação n. 965, redigida em 11 de setembro de 2012, dia de São Pedro de Alcântara e de São João Gabriel Perboyre.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Todo pleito eleitoral brasileiro é, no mínimo, tragicômico. Um festival de vaidades inflamadas por egos afetados. Para todas as direções que volvemos as meninas de nossas vistas lá encontramos fogueiras ardendo orgulhosamente, inclusive e principalmente, quando dirigimos o olhar para o âmago de nosso ser.

Aliás, como nos lembra Alexandre Herculano, o vaidoso é o que chama o mundo para espectador de seu orgulho e o orgulhoso, aquele que coloca a si como único espectador de sua vaidade. Diante dessas palavras, penso que seja impossível não reconhecer nossos rompantes de cidadanite manifestos nestes dias de campanha eleitoreira. Todavia, no Brasil, quando o quesito é a falta de caráter, tudo é possível, não é mesmo?

Facilmente nos envaidecemos com o fictício poder que colocam em nossas mãos. Sufragamos eletronicamente para homologar a vontade de poder de outrem imaginando que com esse gesto estamos fortalecendo a democracia que, nestas plagas, é algo tão ufanado quanto incompreendido e mutilado.

Por essas e outras que não temos como discordar de Nelson Rodrigues quanto este afirmou que o grande mérito da democracia é o de ter ensinado aos idiotas que eles são a maioria. Sim, somos a maioria absoluta e incontestável, não importa para que direção nosso voto aponte.

E mais! Esquecemos, como nos ensina Rudolph Emerson, que o que há de mais sagrado em nós é a integridade de nossa consciência. Pior! Somos nós mesmos os primeiros a profanar esse santuário íntimo quando permitimos que a vaidade enxovalhe a verdade que nos habita. Mutilamos nosso caráter e corrompemos nossa inteligência, pois, é mais cômodo vivermos em conformidade com a opinião da turba. Entretanto, a alma verdadeiramente grande é aquela que se conserva calma, independente e solitária, mesmo estando imersa no meio do vulgo, como o mesmo nos admoesta. Mas, quem realmente tem essa disposição de espírito? Quem de nós realmente quer singrar seus passos por essa via?

Não é difícil responder essa questão. Problemática é a audição da resposta porque ela revela-nos a sombra que impera em nossa alma e afaga nossa envaidecida persona despersonalizada. Sim, a tirania de um déspota, diz Montesquieu, arruína um Estado, mas muito mais grave que isso é a indiferença geral pelo bem comum. E como esta reina entre nós ao lado da majestade imbecilizante que mutila nossa consciência. Infelizmente, neste cenário, toda fagulha de boa vontade revela-se uma pífia dissimulação!

É difícil, confesso, ter alguma esperança de que uma boa governança venha a reger os rincões desta terra de desterrados, visto que, toda boa vontade vê-se sufocada pela mendacidade reinante. É difícil esperar o mínimo de bom senso de uma sociedade que despreza o conhecimento ao mesmo tempo de exalta a vulgaridade mal travestida de cultura. E mesmo assim, há ainda quem diga que o que há de melhor no Brasil é o...

Ledo engano.

Pax et bonum
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