DA ESTULTICE ORGULHOSA


Escrevinhação n. 966, redigido em 17 de setembro de 2012, dia de São Roberto Belarmino.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Você já leu Memórias Póstumas de Braz Cubas ou Dom Casmurro? Frequentemente faço essa pergunta a neófitos presunçosos ou mesmo a pessoas na plenitude de sua (de)formação que tem o brasílico hábito de querer puxar uma prosa com aqueles pedantes ares de gente cabeça, sabida e versada nas ocultas ciências dos cocurutos ocos. Rotineiramente, recebo como resposta aquele olhar enojado acompanhado duma boca boba, torcida, seguida da afirmação: “Machado de Assis! Ui!”

Pois é, mas, em regra, todas essas mal fadadas almas sebosas nunca o leram com a atenção que lhe é devida e, a parca atenção que muitas das vezes lhe foi dirigida é devido à imposição de um professor da língua mátria e só. Fim de conversa. Todavia, ouso indagar sempre a estes: quem de nós, hoje, seria capaz de escrever, uma linha que fosse, com a maestria machadiana? Quem de nós maneja a língua pátria de modo similar a ele?

Esses narizes torcidos frente à pedra angular de nossa literatura são um claro sintoma de nossa egolatria terminal. Em nós, a tolice atingiu píncaros tão excelsos, que imaginamos que nossa incompreensão do vocabulário utilizado por Machado (e tantos outros) coloca o nosso mísero uso do vernáculo no patamar de juízes salomônicos autorizados a dizer o que é digno ou indigno de nosso patrimônio cultural.

Ora, em média, um adolescente, utiliza-se em suas comunicações diárias de aproximadamente 60 palavras. Vocábulos esses parcamente ditos e combinados, diga-se de passagem. Para piorar a cenário, o universo vocabular adulto não é muito diferente. No imaginário demente dos elementos que dão forma à nossa sociedade o amor as letras é uma excentricidade de gente metida, visto que, o brasileiro, de um modo geral, crê-se dotado de uma espécie de sabedoria infusa que dispensa-o do conhecimento dos problemas que são apresentados pela grande literatura de sua nação e, naturalmente, da literatura universal e de qualquer estudo minimamente sério.

Por essas e outras, a incompreensão, nestas plagas, tornou-se sinônimo de distinta sabedoria, o auto-engano mordaz é tratado com a honrosa alcunha de mentalidade crítica e a estultice graciosa como sendo sinônimo de grande habilidade nas conversar furrecas, digo, discussões sobre temas de “grande relevância”.

Só o fato de termos pessoas diplomadas que acreditam piamente que a leitura das linhas machadianas, ou de qualquer obra da grande literatura, seria uma chatice compulsória (hoje, não mais) dos idos colegiais, denota o quanto que, no Brasil, caímos a um nível infra-humano.

Aliás, como nos ensina o historiador Alexandre Herculano, a ruína e a solidão dos templos, monumentos de nossa alma, denotam a nossa queda, mesmo que não a sintamos. Ora, as grandes obras da literatura de um país são um dos templos sagrados que devem ser frequentadas pia e regularmente, coisa que, infelizmente, não mais se faz e nem mesmo se deseja fazer.

De fato, não sentimos e não desejamos tornarmo-nos cônscios de nossa decrepitude moral e intelectual. 

Pax et bonum
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