DA DIGNIDADE FINGIDA


Escrevinhação n. 963, redigdo em 03 de setembro de 2012, dia de São Gregório Magno e São Marino.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Todos ficam ofendidinhos quando alguém simplesmente relata o óbvio ululante de que nossa sociedade é corrompida até os gorgomilos. Fazemos pose de injuriados, espumamos o canto da boca de indignação, porém, não fazemos o mínimo esforço para identificar o quão verdadeiras são essas palavras e muito menos ponderamos sobre o que poderíamos fazer para, ao menos, lutar contra essa tendência que deita suas raízes em nosso coração e, diuturnamente, é cultivada por nós, através de nossa cumplicidade e conivência com as pestilências morais que infectam nossa sociedade e, consequentemente, nossa alma.

Se conversarmos com dez brasileiros todos eles dirão que são terminantemente contra a corrupção político-administrativa, que rejeitam o nepotismo e o tráfico de influência e que condenam os favorecimentos indevidos a amigos e correligionários. É, mas dos dez, ao menos quatro, já usufruíram de alguma benesse desta ordem e não tem vergonha disso. Dos seis restantes, ao menos três estão indignados com tudo porque nem uma gotinha desta maré de lama respingou neles para que eles, também, pudessem cair ao menos um pouquinho na lambança. Quanto aos últimos, estes, provavelmente, são daqueles espécimes raros em nossa pátria. Trabalhadores, honestos e que, mais do que indignados, sentem-se acuados, com medo, por viver em um país onde a indignidade é premiada, favorecida e estimulada.

Isso mesmo! Não é que as pessoas que labutam para tornarem-se dignas têm vergonha de ser honestas. Não! As pessoas honestas têm medo de o ser. Para lhes ser franco, têm-se a clara impressão de que vivemos hoje, no Brasil, a realização concreta do conto “A Igreja do Diabo” de Machado de Assis, onde as pessoas de bem fazem o bem às escondidas, para que ninguém pense nenhuma maledicência delas para que não seja ferido o código de má conduta tão vilmente adotado por nossa sociedade.

José Bonifácio, Pai fundador de nosso País, afirmava enfaticamente que quando ele colocava-se a refletir sobre os estado em que se encontravam os seus iguais, procurava considerar atentamente a educação destes e, ao fazer isso, não se admirava que eles fossem maus e corrompidos. Aliás, admirava-se de eles não o fossem mais ainda. Ora, como ser virtuosos se não somos educados para a virtude, se desde a mais tenra mocidade todos os exemplos que nos rodeiam nos conduzem ao crime e ao mais envilecido egoísmo?

Sim, sei que por todos os lados que voltamos nossas vistas vemos pessoas, empavonadas ou não, discursando contra a inexistência de espírito público em nossa república e outras tantas ouvindo (des)atentamente. Mas, tudo isso, não passa do necessário simulacro hipócrita de nossa sociedade que adota como pedra angular de seu caminhar o gesto vil de expurgar a Verdade do coração para que a vaidade possa sentir-se mais à vontade no cultivo dos inchados egos carcomidos de almas que voluntariosamente se degradam neste carnaval de uma nota só.

Por fim, ou impavidamente lutamos contra as raízes corruptas e corruptoras que se fazem presentes em nosso coração para que tornemo-nos dignos, prestativos e bons, como nos ensina Goethe ou, ao menos, tenhamos um pingo de vergonha e calemos nossa pífia hipocrisia.

Pax et bonum
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