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Mostrando postagens de Setembro, 2012

A (DEPRE)CÍVICA DIGNIDADE

Escrevinhação n. 967, redigida em 25 de setembro de 2012, dia de Santa Aurélia e Santa Neomísia, Santo Alberto, São Firmino e São Cléofas.
Por Dartagnan da Silva Zanela

Há certas leviandades em nossa sociedade que, confesso, fazem-me rir. Uma é esse trololó moralista que versa sobre a compra e venda de votos. Que vender o voto é uma indignidade, todo mundo sabe, inclusive aquele que vende e principalmente aquele que compra. Provavelmente, o que ambos não saibam, e que não fazem a menor questão de saber, é o que vem a ser a tal da dignidade, essa joia rara em nossa sociedade. E, falando-se disso, quem neste país realmente almeja essa refinada ambrosia, a dignidade, para adornar sua alma? Quem, de fato, lhe dá valor?
De mais a mais, como havia dito, o que rouba minha atenção não é essa prática mesquinha e putrefaz. O que realmente me deixa intrigado é a leviandade das vozes que se levantam contra essa prática. Vozes essas que chegam a ter gozos dionisíacos por posarem de bons-moços para …

DA ESTULTICE ORGULHOSA

Escrevinhação n. 966, redigido em 17 de setembro de 2012, dia de São Roberto Belarmino.
Por Dartagnan da Silva Zanela

Você já leu Memórias Póstumas de Braz Cubas ou Dom Casmurro? Frequentemente faço essa pergunta a neófitos presunçosos ou mesmo a pessoas na plenitude de sua (de)formação que tem o brasílico hábito de querer puxar uma prosa com aqueles pedantes ares de gente cabeça, sabida e versada nas ocultas ciências dos cocurutos ocos. Rotineiramente, recebo como resposta aquele olhar enojado acompanhado duma boca boba, torcida, seguida da afirmação: “Machado de Assis! Ui!”
Pois é, mas, em regra, todas essas mal fadadas almas sebosas nunca o leram com a atenção que lhe é devida e, a parca atenção que muitas das vezes lhe foi dirigida é devido à imposição de um professor da língua mátria e só. Fim de conversa. Todavia, ouso indagar sempre a estes: quem de nós, hoje, seria capaz de escrever, uma linha que fosse, com a maestria machadiana? Quem de nós maneja a língua pátria de modo simi…

A tirania do futuro

Por João Pereira Coutinho
Imagine o leitor que era possível saber, com algum grau de certeza, o futuro clínico do seu filho ainda por nascer. Estaria disposto a dar esse passo?
Não, o cenário não é produto da imaginação fílmica de Hollywood. Em artigo para a "Slate", Harriet Washington levanta o véu sobre esse admirável mundo novo: pesquisadores americanos desenvolveram uma técnica pré-natal que permite isolar o DNA do feto a partir do sangue da mãe.
Depois, com essa preciosa informação genética, será possível compor uma lista generosa com os todos os genes "problemáticos" da futura criança.
Em teoria, será possível saber se aquela vida será longa e saudável; ou, pelo contrário, se terá uma tendência genética pronunciada para desenvolver certos tipos de câncer ou outras doenças igualmente graves.
No artigo, a autora levanta alguns problemas que a descoberta pode trazer. Problemas práticos, médicos, sociais, parentais, que se resumem na pergunta: o que fazer com es…

Fraudas

Por Roberto DaMatta - O Estado de S.Paulo
Um velho amigo, Álvaro Acioli, me lembra uma frase do ferino Eça de Queiroz: "Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão".  Citação mais do que apropriada neste momento em que somos legalmente impingidos com a "propaganda eleitoral gratuita", essa marcha de caras e promessas que precedem o ritual democrático da mais alta importância: a hora de trocar certos atores por meio de uma escolha - a eleição.
A troca, data vênia, das fraldas, para ficarmos com o velho Eça, tem suas etiquetas. No nosso caso, ela promove na TV um desfile hierarquizado por tempo de exposição dos candidatos; um tempo subordinado ao poder do partido de cada aspirante. Os bem aquinhoados partidariamente têm mais tempo. Os sem-tempo tentam definir em segundos uma vida e um programa.
É quando eu me dou conta do absurdo dessa competição eleitoral dando a muitos alguns segundos, enquanto poucos podem desempenhar o papel de…

A engenharia da desordem

Por Olavo de Carvalho
Todo mundo sabe que a base eleitoral do ex-presidente Lula, bem como a da sua sucessora, está nas filas de beneficiários das verbas do Fome Zero. Embora a origem do programa remonte ao governo FHC, o embrulhão-em-chefe conseguiu fundi-lo de tal maneira à imagem da sua pessoa, que a multidão dos recebedores teme que votar contra ele seja matar a galinha dos ovos de ouro.
No começo ele prometia, em vez disso, lhes arranjar empregos, mas depois se absteve prudentemente de fazê-lo e preferiu, com esperteza de mafioso, reduzi-los à condição de dependentes crônicos.
O cidadão que sai da miséria para entrar no mercado de trabalho pode permanecer grato, durante algum tempo, a quem lhe deu essa oportunidade, mas no correr dos anos acaba percebendo que sua sorte depende do seu próprio esforço e não de um favor recebido tempos atrás. Já aquele cuja subsistência provém de favores renovados todos os meses torna-se um puxa-saco compulsivo, um servidor devoto do "Padim&qu…

Uma epidemia de "síndrome do olho eletrônico"

Por Umberto Eco
Algum tempo atrás eu estava dando uma palestra na Academia Espanhola em Roma - ou melhor, tentando dar uma palestra. Fui distraído por uma luz forte que brilhava em meus olhos e dificultava que eu lesse minhas anotações - a luz de uma câmera de vídeo de um celular pertencente a uma mulher na plateia. Reagi de maneira muito ressentida, comentando (como geralmente faço diante de fotógrafos desconsiderados) que, mantendo a adequada divisão de trabalho, quando eu estou trabalhando eles deveriam parar de trabalhar. A mulher desligou a câmera, mas com um ar oprimido, como se tivesse sido submetida a um verdadeiro insulto.
Justamente neste verão em San Leo, quando a cidade italiana estava lançando uma maravilhosa iniciativa para homenagear a paisagem da área de Montefeltro que aparece nas primeiras pinturas renascentistas de Piero della Francesca, três pessoas me cegavam com seus flashes, e eu parei para lhes lembrar as regras de boas maneiras. Deve-se notar que nesses dois …

Por que Robespierre escolheu o Terror

Por John Kekes
A atitude americana em relação à Revolução Francesa foi em geral favorável – muito natural para uma nação nascida ela própria de uma revolução. Mas há revoluções e revoluções, e a Revolução Francesa está entre as piores. Sim, em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, ela derrubou um regime corrupto. Mas o resultado desses belos ideais foram, primeiro, o Terror e o genocídio na França e, depois, Napoleão e suas guerras, que custaram centenas de milhares de vidas na Europa e na Rússia. Depois deste massacre inútil veio a restauração do mesmo regime corrupto que a Revolução derrubara. Além de um imenso sofrimento, a revolta nada conseguiu.
Liderando a traição aos ideais iniciais da Revolução e sua transformação em uma tirania de ideologia homicida estava Maximilien Robespierre, um monstro que criou um sistema explicitamente feito para matar milhares de inocentes. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, ele fez o que pretendia fazer, e ele acreditava estar certo e…

DEMOCRACIA DE MEIA-PATACA

Escrevinhação n. 965, redigida em 11 de setembro de 2012, dia de São Pedro de Alcântara e de São João Gabriel Perboyre.
Por Dartagnan da Silva Zanela
Todo pleito eleitoral brasileiro é, no mínimo, tragicômico. Um festival de vaidades inflamadas por egos afetados. Para todas as direções que volvemos as meninas de nossas vistas lá encontramos fogueiras ardendo orgulhosamente, inclusive e principalmente, quando dirigimos o olhar para o âmago de nosso ser.
Aliás, como nos lembra Alexandre Herculano, o vaidoso é o que chama o mundo para espectador de seu orgulho e o orgulhoso, aquele que coloca a si como único espectador de sua vaidade. Diante dessas palavras, penso que seja impossível não reconhecer nossos rompantes de cidadanite manifestos nestes dias de campanha eleitoreira. Todavia, no Brasil, quando o quesito é a falta de caráter, tudo é possível, não é mesmo?
Facilmente nos envaidecemos com o fictício poder que colocam em nossas mãos. Sufragamos eletronicamente para homologar a vontade…

O sentido das palavras

Por Carlos Heitor Cony
"Até nas flores se encontra a diferença da sorte: umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte." Esse poema se aprendia nas escolas do passado. Hoje, a diferença da sorte atinge até mesmo os partidos políticos, que podem ser resumidos em situação e oposição.
Para a oposição, dona Dilma é presidente da República. Para a situação (PT e aliados), é presidenta, como ela própria gosta de ser tratada. É fácil identificar quem é a favor ou contra o governo. Embora não se diga de uma moça que é "estudanta", de uma mulher acamada que é "doenta" ou "pacienta", a sutileza do tratamento é uma declaração de princípios, um programa de salvação nacional.
Há também uma outra sutileza que define os rumos ideológicos e transcendentais da atual situação nacional. Os veículos de comunicação, principalmente as TVs oficiais e as oficiosas, quando botam no ar os debates no Supremo Tribunal Federal (STF), identificam o programa como "ação …

A inveja infantil improdutiva

Por Luiz Felipe Pondé
A relação de grande parte da nossa mídia e dos intelectuais locais com os Estados Unidos continua sendo a de uma inveja infantil improdutiva, uma síndrome que podemos chamar de "I. I. I. Adição". Psiquiatras brasileiros poderão descrevê-la no futuro, caso eles mesmos não sofram da síndrome de inveja infantil improdutiva. E, como toda síndrome infantil, é primitiva e quase incurável.
Agora, com a eleição nos EUA, de novo, a síndrome se mostra na ridícula parcialidade da maior parte da cobertura e análises (se podemos chamar "gritos da torcida" de análise). A torcida grita: Obama é a prova de que homens criados por mulheres fortes e independentes produzem homens melhores (na realidade, homens com medo das mulheres...), Obama é a cura para a doença (a crise econômica) que assolou os EUA porque ele não representa os milionários e esses são malvados... risadas...
As "cheerleaders" gritam: os republicanos são obviamente idiotas que repres…

Uma religião para todos?

Por Carlos Ramalhete
50 anos atrás, o grande estudioso do fenômeno religioso Mircea Eliade observou que se estava na etapa inicial de um novo tipo de “religião”, baseada no secularismo radical, sem Deus ou deuses. Religião, afinal, é isso: é a ligação, ou busca de ligação, do homem com a ordem de todas as coisas. Nossa sociedade, vendo-se como autora da ordem do mundo, criou esta forma religiosa: uma religião ateia, em que o homem é seu próprio deus.
No paganismo clássico, os deuses são homens aumentados, inclusive em seus defeitos: Mercúrio, Loki ou Exu não são companhias agradáveis, por mais que com eles seja possível negociar. Nesta nova “religião”, no entanto, o homem não é aumentado; ao contrário, suas funções fisiológicas e prazeres sensíveis tornam-se o objeto do culto. Busca-se a saciedade, não a perfeição. [continue lendo]

DA DIGNIDADE FINGIDA

Escrevinhação n. 963, redigdo em 03 de setembro de 2012, dia de São Gregório Magno e São Marino.
Por Dartagnan da Silva Zanela

Todos ficam ofendidinhos quando alguém simplesmente relata o óbvio ululante de que nossa sociedade é corrompida até os gorgomilos. Fazemos pose de injuriados, espumamos o canto da boca de indignação, porém, não fazemos o mínimo esforço para identificar o quão verdadeiras são essas palavras e muito menos ponderamos sobre o que poderíamos fazer para, ao menos, lutar contra essa tendência que deita suas raízes em nosso coração e, diuturnamente, é cultivada por nós, através de nossa cumplicidade e conivência com as pestilências morais que infectam nossa sociedade e, consequentemente, nossa alma.
Se conversarmos com dez brasileiros todos eles dirão que são terminantemente contra a corrupção político-administrativa, que rejeitam o nepotismo e o tráfico de influência e que condenam os favorecimentos indevidos a amigos e correligionários. É, mas dos dez, ao menos quatr…

Visão curta e visão mais curta

Por Olavo de Carvalho
O livro dos Trinta e Seis Estratagemas chineses ensina: “Todo fenômeno é no começo um germe, depois termina por se tornar uma realidade que todo mundo pode constatar. O sábio pensa no longo prazo. Eis por que ele presta muita atenção aos germes. A maioria dos homens tem a visão curta. Espera que o problema se torne evidente, para só então atacá-lo.”
As duas perguntas que  o trecho sugere são:
1) Onde estão os germes?
2) Quando os problemas ficam evidentes, aparecem claros para todo mundo  ao mesmo tempo?
A resposta à primeira pergunta nem é muito difícil. Todas as situações histórico-políticas nascem da ação humana, e a ação nasce da especulação de possibilidades. Quem especula possibilidades são os intelectuais, numa gama que vai desde os estudantes tagarelas, passando pelos ideólogos de partidos, até os assessores e conselheiros de potentados da política e das finanças, culminando nos círculos discretos ou até semi-secretos de inteligências privilegiadas (como…