TIPIFICAÇÃO DA NULIDADE (DEPRE)CÍVICA


Escrevinhação n. 959, Redigida em 06 de agosto de 2012, dia da Bem-aventurada Maria Francisca Rubatto e da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Há um belíssimo diálogo encenado no filme “O mestre da armas”, dirigido por Ronny Yu. Nele, Huo Yuan Jia (Jet Li), aprecia uma xícara de chá com Anno Tanaka (Shido Nakamura) antes da luta que travariam em um torneio. A prosa era sobre chá e artes marciais, sobre as virtudes da bebida e das artes. Neste diálogo, Tanaka pergunta a Yuan Jia por que eles competem tanto se todas as artes marciais seriam iguais? Por quê? Porque as competições nos revelam nossas fraquezas e, deste modo, nos guiam à plenitude.

Pois bem, neste ano, em todas as cidades e cidadelas deste país estamos tendo o acirramento de inúmeros combates. Pelejas estas que nem de longe se aproximam da dignidade dos dois personagens presentes nesta bela película.

Sim, as eleições, de um modo geral, revelam as fraquezas de nossa vida (depre)cívica, o baixo nível moral de nossa sociedade e a falta de caráter de seus integrantes, especialmente daqueles que julgam-se instruídos e que, presumem que agem de maneira corretíssima.

Outra coisa: mesmo que algo nos seja revelado, não significa que nos tornaremos cônscios de sua existência. Nós podemos ver algo sem o desejo sincero de observá-lo. Podemos ter a verdade diante de nossos olhos e, mesmo assim, temos a possibilidade de negá-la, confundi-la ou de construir um raciocínio tão confuso quanto contraditório.

Pois bem, temos diante de nossos olhos a verdade sobre a torpeza de nossa sociedade, sobre baixeza que norteia as ações (infra)humanas que (des)governam essa terra de desterrados, entretanto, nos recusamos a reconhecer o reflexo disso tudo em nosso coração.

Sim, as eleições sempre apresentam as fraquezas da alma brasileira e ciclicamente nos esquivamos de suas imagens, do reflexo delas no espelho de nossa alma. Seja através da figura dos candidatos ou das reações dos eleitores, o que temos é um fiel retrato do que somos. Mas, afinal, o que somos? Somos uma sociedade amorfa composta por pessoas rasas e vaidosas.

Tanto o somos que, pessoalmente, o que chama atenção é o quão facilmente nos permitimos ser preenchidos pelas chulas discussões que imperam nestes dias. Detalhe: não são colóquios onde os interlocutores estão ciosos por conhecer as propostas apresentadas, ou o perfil dos candidatos, ou sua (in)experiência comprovada. As preleções são, em regra, pautadas pela simpatia ou antipatia, partidarizadas desde o início, similar a uma discussão desavergonhada entre facções acanalhadas.

Lembro-me aqui, antes de findar esta nefária missiva, as palavras de William Blake que afirmava que os escravos conversam sobre pessoas e os senhores sobre idéias. Mas, o que dizer de nós? O que são as pessoas que conversam apenas sobre caricaturas? O que dizer de indivíduos que dialogam apenas sobre sombras?

É melhor não dizermos nada se não desejamos enfrentar nossas fraquezas.

Pax et bonum
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