O QUE HÁ NO HORIZONTE DO BRASIL?

Escrevinhação n. 960 redigida em 07 de agosto de 2012, dia de São Caetano de Thiene, de Santa Afra e suas companheiras e de Santo Xisto II.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Mister Slang e o Brasil” é um livreto maravilhoso nascido da pena e do gênio de Monteiro Lobato, obra esta composta por luminosos diálogos entre um brasileiro íntegro (espécime raro) e um cordial e atento observador inglês. Numa das falas, Mr. Slang diz que em nossas terras todos os escrúpulos morais inexistem, o amoralismo governa-nos e a injunção política impera.

Ainda, o mesmo afirma-nos que nestas terras praticamente todos os valores morais foram invertidos e que, o pouco que restou, ficou tão molambento que não resiste a um reles sopro de um reles lobo malvado.

De fato, de tão torpe que se encontra nossa sociedade que se tornou lugar comum a crença de que a patifaria e a vilania são uma regra universal, um traço singular que marca a imagem do ser humano que nos esquecemos de perguntar se, de fato, esse estado de coisas ignóbeis que impera nesta república é realmente algo humanamente aceitável.

Muito antes de Lobato, José Bonifácio, nos tempos do processo da independência, já percebia com tristeza essa praga que infectava os brasílicos ares. Dizia ele que: “no Brasil a virtude, quando existe, é heróica, porque tem que lutar com a opinião e o governo”. De fato, todo aquele que procura pautar a marcha de sua caminhada por esse vale de lágrimas de acordo com o ritmo ditado pelos valores universais vê-se vexado por todos os lados de modo similar a um jesuíta em meio a silvícolas antropófagos.

Sim, por toda parte vemos os cidadãos desta patética república afirmar que nós, brasileiros, somos pessoas devotas, religiosas e com brio. De fato, porém, ainda como nos lembra José Bonifácio, somos devotos sem virtude, temos religião sem moral e pundonor sem honradez. Somos cidadãos do pau oco que apenas se interessam pelo bem público quando este corresponde, direta ou indiretamente, em um bem pessoal que alegra nossa vida mesquinha.

Os gestos de sacrifício abnegado são praticamente inexistentes no cenário nacional. Todos queixam-se de seus fardos. Repudiamos o peso que cai sobre nossos ombros sem, ao menos, ponderarmos sobre a real grandeza deste. Assim agimos porque não temos presente em nós um sólido senso de dever. Em nosso doentio imaginário concebemos apenas que somos portadores de direitos e mais direitos. Todavia, vale lembrar que tudo seja feito para atender nossas fantasias não nos dignifica. Apenas denota que aceitamos ser mimados pelas potestades Estatais e desfibrados frente aos desafios da vida.

Nos falta, urgentemente, uma ardente aspiração pelo dever para que, deste modo, como nos ensina Victor Frankl, encontremo-nos com a responsabilidade vital que inevitavelmente nos leva à plenitude da liberdade. Porém se continuarmos a insistir em vivermos essa vil pachorra, essa cidadania de alcova, jamais poderemos conceber que a dignidade resplandeça no horizonte do Brasil.

Pax et bonum
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