A LETRA DO MEDALHÃO


Escrevinhação n. 962, redigida em 21 de agosto de 2012, dia de São Pio X.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Analfabeto não é aquele que não sabe ler. Analfabeto é aquele que sabe ler e não lê. Todos já ouviram ou leram essa afirmação de Mário Quintana. Pior que esse tipinho (infra)humano é aquele que leu apenas um livro e interpreta tudo e a todos à luz das páginas deste. Este é um sujeito perigoso, como nos lembra Santo Tomás de Aquino e, infelizmente, não são poucos.

Em algum momento de sua vida, esses indivíduos foram obrigados a ler algo em sua (de)formação, digo, leram devido a sugestão que fora feita pelos seus maestros e aí transformam as palavras que foram solvidas daquelas páginas na pedra angular de sua existência e, por terem lido um livreto, esses sujeitos julgam que passaram a habitar os píncaros olimpianos e, nesta altitude imaginária, passam a olhar todos em seu entorno como reles mortais.

E o pior de tudo é que, em regra, esse tipo singular de analfabeto medalhão (aludindo aos personagens do magnífico conto machadiano), tem como base de seu caráter um livro de pífio valor (ou meia dúzia de coisas da mesma lavra).

Um bom exemplo são os sujeitos que vivem com o nome de Paulo Freire em seus lúgubres lábios. Em regra, consideram sua obra uma expressão apolínea da verdade e ele como sendo um educador singular justamente porque nunca leram nada além das fronteiras delimitadas pela sua desídia cognitiva e porque não conhecem nenhum outro educador além da imagem deste. Isso mesmo! Confesso que não conheço um só indivíduo que idolatra o referido senhor que realmente tenha dedicado um tiquinho de sua vida que seja para conhecer, de fato, quem é o seu guru.

Esses sujeitos, inevitavelmente, colaboram dramaticamente para dilapidação do bem mais precioso que nós possuímos que é o sentido das coisas, como nos ensina Antoine de Saint-Exupéry. É isso o que o analfabeto medalhão faz em sua insana volúpia de tudo interpretar sob o crivo de sua ignorância mal calçada, pois ele acredita, piamente, que é uma pessoa iluminada, que teve uma visão do todo advinda de sua leitura mínima balizada por sua parva vontade de conhecer.

Para eles a realidade não é o que é, mas sim, o que eles desejam que ela seja. Esses sujeitos não se esforçam em colocar a sua mente no mundo para dilatar os umbrais de seu conhecimento. Pelo contrário! Eles querem reduzir toda a realidade para que ela bem se ajuste a sua cabeça como nos ensina G. K. Chesterton. E, é claro que procedendo deste modo, nada que mereça respeito pode ser parido.

Se esses sujeitos fossem capazes de descer do pedestal de seu orgulho veriam com clareza o quão ridículas são suas vidas. Caricaturas humanas que não dão o necessário valor à procura pela verdade e ao sentido da realidade e, por isso, incapazes de importar-se com os problemas que advém de suas decisões tomadas à sombra de seu analfabetismo de medalhão.

Pax et bonum
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