É A VOLÚPIA DO ARREPENDIMENTO


Escrevinhação n. 954, redigido em 27 de junho de 2012, São Cirilo de Alexandria.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Não esqueça essas palavras, originalmente presentes em Memórias póstumas de Brás Cubas. É tudo volúpia do arrependimento. Decore-as! Guarde-as bem, porque elas nomeiam claramente aquele aperto taciturno que tortura nosso peito. Porém, de que nos arrependemos?

Se há algo que realmente nos torna melhor neste vale de lágrimas é o sentimento de culpa que nos leva a um sincero reconhecimento de nossas faltas. Ele nos permite ter acesso a uma medida real de nossa pequenez. Sem sentimento de culpa não somos capazes de reconhecer a verdade e a falsidade presentes em nossos atos e, consequentemente, cegamo-nos para a Verdade que a tudo ilumina.

Fiando nosso passo por essa vereda, tudo se torna relativo, tornando nosso ego inchado e degradado o referencial absoluto do entendimento. O fruto mais patente desse relativismo moral é o tosco umbigocentrismo reinante que inverte todos os valores em nome de nossa desumanidade.

Por isso mesmo que tanto o Bem-aventurado Papa João Paulo II, em sua Encíclica Veritatis Splendor, como o Papa Bento XVI em sua Encíclica Spe Salvi, nos chamam a atenção para o fato de que a raiz do totalitarismo moderno encontra-se no fechamento da alma humana para a dimensão transcendente da Verdade. Ao tornarmo-nos obtusos à verdade que nos transcende e nos dá forma, abrimo-nos, inevitavelmente, à redução da pessoa humana a um mero joguete de decisões e opiniões arbitrárias.

Por isso o arrependimento advindo da culpa apenas pode nascer dum frequente exercício de exame de consciência. Aliás, a consciência torna-se estéril a partir do momento em que o sujeito não mais reconhece-se culpado pelos seus erros e faltas. E o engraçado nisso tudo é que quanto menos uma pessoa cultiva o arrependimento sincero, mais ela fala da necessidade atávica de se conscientizar as pessoas disso ou daquilo.

Sim, quando nos apresentamos desnudos diante do tribunal da consciência nosso peito dói. Sentimo-nos mal porque a maledicência que frutificou de nossos atos torna-se presente diante das meninas de nossa vista. Tal situação é vergonhosa mesmo que estejamos a sós e, por isso mesmo, tal qual Adão, nos escondemos de Deus e de nós mesmos. Camuflamos nossa vergonha com as folhagens de nossa soberba e alguns ramos de vaidade. Fechamos os olhos e viramos as costas para a responsabilidade pessoal por nossa vida bem do jeitinho que o diabo gosta.

Não é por menos que o arrependimento tornou-se um gesto pornográfico na sociedade contemporânea. Não é à toa que o relativismo dos valores faça tanto sucesso, visto que, de tanto auto-estimarmos nosso universo umbilical que nos perdemos da Verdade sobre nós.

Pax et bonum
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