quarta-feira, 25 de julho de 2012

O LODO FÉTIDO DO FUNDO DA ALMA ÉTICA


Escrevinhação n. 956, redigida em 17 de julho de 2012, Santa Maria Madalena Postel, de Santa Generosa, de Bartolomeu de Las Casas e de Santo Aleixo.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Alfred de Musset, em sua obra “A confissão de um filho do século”, afirma que há um perigo terrível em saber o que é possível, porque o espírito vai sempre mais longe. É difícil medir o horizonte do possível da mesma forma que não é fácil fazer escolhas acertadas em nossa vida.

As incertezas nos visitam e nos acompanham dia após dia em nossa caminhada por esse vale de lágrimas. Interiormente, cada qual se vê acompanhado de suas cruzes. Alguns as desdenham, outros as abraçam e logo as largam. Outros as abraçam e as jogam várias vezes ao dia, todos os dias. Mesmo que elas sejam leves, nós, por nossa deixa, conseguimos ser levianos e francos.

Porém, isso não é motivo para esmorecer. É apenas um dado da realidade e, em nós, a perseverança deve ser maior que nossa vileza. Ninguém se converte definitivamente, como nos ensina o frei Inácio Larrañaga. Mesmo ferido mortalmente, o homem velho, revestido de pecado, continuará a nos acompanhar até a sepultura. Por isso que cada dia de nossa vida é um dia de luta e essa é a razão que levou o filósofo Jackson Figueiredo a declarar que essa vida é um momento único para nos aperfeiçoarmos.

Gostemos ou contrariemos, não devemos nos ver como uma peça de cerâmica frágil e delicada como apregoa toda ordem de psicologismos. Nosso coração, e bem como nossa alma, são de pedra, como nos lembra o evangelista São João e Santo Agostinho e, por isso mesmo, devem ser talhados com a rigidez disciplinar de um bom cinzel guiado pela mão firme da Verdade.

Neste sentido, há momentos em que Aquele que É permite que absurdos aconteçam em nossa vida para que lutemos contra o homem velho, contra a covardia moral que nos leva muitas das vezes a virar as costas a tudo quanto é sagrado das maneiras mais dissimuladas possíveis.

Para nos esquivarmos dos golpes da Verdade posamos de bons-moços fazendo aquele tipinho politicamente-correto que é da paz, que não quer saber de conflitos com o mundo, com as hostes das trevas e muito menos consigo mesmo. É mais confortável fechar os olhos para as máculas que infectam nossa alma que enfrentá-las. É mais cômodo e tranqüilo fingirmos que somos bons do que nos esforçarmos através da dura estrada que nos leva ao Bem.

E o pior de tudo é que nós gostamos disso. Sim! Houve um tempo em que se acreditava que a verdade deveria ser sempre dita doa a quem doer. Entretanto, hoje, ela pode apenas ser proclamada se não ferir nem magoar ninguém e, deste modo, nosso coração, o centro pulsante de nosso ser, fica embrutecido pelo nosso amor desmedido a nós mesmos que se esquiva da Verdade com toda ordem de mentiras ao mesmo tempo em que se destrói neste círculo auto-idolátrico. 

Por fim, o que mais acabrunha a alma é o fato de idolatramos a mentira ao ponto de chamarmos o cinismo de ética e o engodo moral de dignidade.


Pax et bonum
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quarta-feira, 18 de julho de 2012

A LÍNGUA BIPARTIDA DA EDUCAÇÃO


Escrevinhação n. 956, redigida em 17 de julho de 2012, Santa Maria Madalena Postel, de Santa Generosa, de Bartolomeu de Las Casas e de Santo Aleixo.

Por Dartagnan da Silva Zanela


O café esfria enquanto escrevo. Já o problema que minha pena desenha, não. Problema este presente em meio às fraturas do contraditório tecido do real que, muitas das vezes, não percebemos. E, quando o intuímos, rapidamente, o desenhamos devido à dispersão alienante de nosso cotidiano.

Aos quatro ventos os hálitos midiáticos e estatais proclamam em alto e bom tom a importância basilar da educação e afirmam que o professor é um sujeito de magna importância e que este deveria ser sumamente respeitado. Junto com esse discurso, temos também o da valorização da profissão professoral. Todos já vimos propagandas sobre isso. Todos nós conhecemos razoavelmente bem esse filme.

Ao mesmo tempo em que ouvimos isso, testemunhamos o esvaziamento da autoridade do professor. Sim, todos declaram cínica e abertamente que a autoridade em sala de aula é o professor, que as decisões tomadas por este, em sua seara, são soberanas, porém, no frio chão da realidade a situação é bem outra.

Muitos educadores, é um fato, sentem-se melindrados diante de toda a estrutura burocrática que formata a educação nos dias hodiernos como se estivessem pisando em ovos de um serpentário ignóbil. Sentem-se receosos em relação a tudo e a todos, pois temem que o seu veredicto seja questionado, que sua pessoa seja enquadrada como um meliante perigoso que gasta sua soturna existência para prejudicar o educando e excluí-lo da sociedade.

Resumindo a opereta: ao mesmo tempo em que se declara, publicitariamente, que o professor é o alicerce indispensável de tudo, a sociedade, como um todo (com inexpressivas exceções), trata-o como o suspeito número um de um crime fictício.

Todos se sentem autorizados a questionar um professor em sua decisão quando esta difere da vã vontade do mimado cidadão infante e/ou contraria as expectativas dos genitores que crêem, piamente, que seu pimpolho é um prodígio em potencial que apenas não manifestou todos os seus dotes porque os malvados professores não querem reconhecer as luzes angelicais do inocente púbere.

Sim, há professores e Professores. Sei disso. Como também sei que há médicos e Médicos, advogados e Advogados, que há bons e maus profissionais em todas as searas, porém, todos sabem, e fingem não saber, que a educação é a única seara onde o profissional tem sua autoridade mitigada e descaracterizada e que, em muitíssimos casos, isso é aplaudido e promovido por educadores que, infelizmente, preocupam-se muito mais em posar de bons-moços do que realmente carregar o fardo do educar que, na maioria das vezes, exige o anúncio de verdades duras. Por isso, bom-mocismo, meu caro, não combina, de jeito algum, com esse chamamento que é o educar.

Pax et bonum
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quarta-feira, 11 de julho de 2012

UMA AMPOLA DE VERGONHA NA CARA


Escrevinhação n. 955, redigida em 09 de julho de 2012, Santa Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, de Santa Verônica Giuliani e de Agostinho Zhao Rong e de seus 119 Companheiros.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Uma treta excelente para mensurar a estupidez de uma pessoa é observar a capacidade dela de portar-se com recato em um ambiente público. Em regra, quanto mais pífia e nula é a pessoa, menor sua capacidade para tanto. Quanto mais insignificante é a pessoa mais ela deseja chamar a atenção de todos das maneiras mais impróprias nos locais mais inoportunos.

Estas são almas carentes de tudo. Carentes de afeto, de atenção e, fundamentalmente, de educação elementar e um bom senso do ridículo. Sim, esses dois pontos levantados são basilares para o desenvolvimento do caráter de um indivíduo, porém, em uma sociedade onde a egolatria é gritante e o umbigocentrismo elevado a critério basilar da edificação do que se convencionou chamar de cidadania nada de digno e bom pode se esperar.

Creio que todo sujeito razoável já teve o desprazer de testemunhar esses tipinhos disformes em ação. De todos os atentados perpetrados por esses seres, creio que há um que cada vez mais se faz presente em nossa sociedade e que demonstra de modo cabal a imensa avalanche de incivilidade que vem tomando conta de tudo e de, praticamente, todos. Talvez, penso eu, um bom exemplo desse mal seja os tais aparelhos celulares.

Estes aparelhinhos são praticamente um patuá, uma espécie de amuleto que deve ser carregado o tempo por seus fiéis, digo, usuários, para que possam a qualquer momento do dia evocar os seus dionisíacos poderes para aliviá-los da monotonia de suas almas. Monotonia esta que, cinicamente, é transferida para tudo que está a sua volta.

Imaginem a cena! Lá está o sujeito, com o olhar fixo em uma telinha insignificante a luzir em suas mãos. As costas arqueadas e a boca levemente aberta, quase babando diante do oráculo que lhe está sendo revelado pela bugiganga sagrada. Aliás, as revelações que essas coisinhas bestiais apresentam aos seus fiéis é sempre algo de uma profundidade que chega a dar náuseas só de imaginar. E tudo isso acontece nos mais variados ambientes, inclusive, em uma sala de aula.

Confesso que, muitas vezes, me pergunto se a cara de bobo do sujeito é fruto de sua fixação neurótica ao aparelho ou se aqueles trejeitos aparvalhados são traços intrínsecos de sua [falta de] personalidade. É difícil saber, visto que o patuá e seu portador são praticamente inseparáveis.

De mais a mais, vai que o elemento venha a ter uma crise de abstinência, digo, existencial, por ver-se apartado daquele troço insignificante que preenche de sentido a sua vida medíocre. Infelizmente, o risco de colapso é demasiadamente elevado para realização deste inocente experimento, não é mesmo?

Goste-se ou não, é um sinal de grande vulgaridade e mesquinharia não sermos capazes de sair de nosso mundinho suprimindo os lábios e desligando o celular. E, para isso, sempre uma dose de vergonha ajuda um bom tanto.

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quarta-feira, 4 de julho de 2012

É A VOLÚPIA DO ARREPENDIMENTO


Escrevinhação n. 954, redigido em 27 de junho de 2012, São Cirilo de Alexandria.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Não esqueça essas palavras, originalmente presentes em Memórias póstumas de Brás Cubas. É tudo volúpia do arrependimento. Decore-as! Guarde-as bem, porque elas nomeiam claramente aquele aperto taciturno que tortura nosso peito. Porém, de que nos arrependemos?

Se há algo que realmente nos torna melhor neste vale de lágrimas é o sentimento de culpa que nos leva a um sincero reconhecimento de nossas faltas. Ele nos permite ter acesso a uma medida real de nossa pequenez. Sem sentimento de culpa não somos capazes de reconhecer a verdade e a falsidade presentes em nossos atos e, consequentemente, cegamo-nos para a Verdade que a tudo ilumina.

Fiando nosso passo por essa vereda, tudo se torna relativo, tornando nosso ego inchado e degradado o referencial absoluto do entendimento. O fruto mais patente desse relativismo moral é o tosco umbigocentrismo reinante que inverte todos os valores em nome de nossa desumanidade.

Por isso mesmo que tanto o Bem-aventurado Papa João Paulo II, em sua Encíclica Veritatis Splendor, como o Papa Bento XVI em sua Encíclica Spe Salvi, nos chamam a atenção para o fato de que a raiz do totalitarismo moderno encontra-se no fechamento da alma humana para a dimensão transcendente da Verdade. Ao tornarmo-nos obtusos à verdade que nos transcende e nos dá forma, abrimo-nos, inevitavelmente, à redução da pessoa humana a um mero joguete de decisões e opiniões arbitrárias.

Por isso o arrependimento advindo da culpa apenas pode nascer dum frequente exercício de exame de consciência. Aliás, a consciência torna-se estéril a partir do momento em que o sujeito não mais reconhece-se culpado pelos seus erros e faltas. E o engraçado nisso tudo é que quanto menos uma pessoa cultiva o arrependimento sincero, mais ela fala da necessidade atávica de se conscientizar as pessoas disso ou daquilo.

Sim, quando nos apresentamos desnudos diante do tribunal da consciência nosso peito dói. Sentimo-nos mal porque a maledicência que frutificou de nossos atos torna-se presente diante das meninas de nossa vista. Tal situação é vergonhosa mesmo que estejamos a sós e, por isso mesmo, tal qual Adão, nos escondemos de Deus e de nós mesmos. Camuflamos nossa vergonha com as folhagens de nossa soberba e alguns ramos de vaidade. Fechamos os olhos e viramos as costas para a responsabilidade pessoal por nossa vida bem do jeitinho que o diabo gosta.

Não é por menos que o arrependimento tornou-se um gesto pornográfico na sociedade contemporânea. Não é à toa que o relativismo dos valores faça tanto sucesso, visto que, de tanto auto-estimarmos nosso universo umbilical que nos perdemos da Verdade sobre nós.

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