A LETRA MAIS DO QUE MORTA


Escrevinhação n. 951, redigido em 18 de junho de 2012, São Gregório João Barbarigo.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Já faz algumas luas que tive a grata alegria de ter lido um auspicioso artigo da lavra de Umberto Eco sobre a arte da caligrafia. Sim, uma arte tão simples quanto elegante que por gerações foi cultivada com grande esmero para que, com as palavras escritas de punho, uma pessoa torna-se clara suas ideias e percepções, desejos e inquietações. É, bons tempos.

Bons tempos em que a palavra escrita servia para que as pessoas se comunicassem, tornando comum a todos algo pessoal. Belos dias em que a beleza das curvas e retas traçadas por uma mão firme e guiada por olhos atentos tinha valor. Admiradas por uns, invejadas por outros e, por todos, reconhecida como um bem.

Todavia, como todos sabem, a turba medíocre há muito impera sobre essas plagas. A beleza não mais tem lugar ao sol. A clareza também foi excluída de seu assento nesta obscura república de letras inelegíveis e de ignorância diplomada. E tudo isso, não nos esqueçamos, pedagogescamente justificado.

Esse trololó tosco, dentre tantos, de que o zelo caligráfico seria uma imposição injusta e excludente é doído de ouvir. Veja só, onde já se viu uma pessoa ser obriga a ter que se esforçar em primar pela clareza no uso das letras. Que autoritarismo! Sim, sei que é ridículo, mas no Brasil de hoje o ridículo fantasia-se de glória e a corte mediocrática deleita-se em aplausos frente à feiura. 

Provavelmente, nunca passou (e creio que nem passará) pela cabeça dos bem pensantes que a caligrafia além de ser um exercício estético também é um instrumento singular para o desenvolvimento da atenção e da precisão. Aliás, quem cultiva essa esquecida arte compreende muito bem do que eu estou falando.

Precisão no traço, atenção nas curvas que vem e vão e, principalmente, um aguçado senso estético no guiamento da caneta para que ela não apenas corra pela folha, mas dance singelamente como uma esguia bailarina em um tablado branco que clama pela marca de seus passos azuis.

Sim, sei que caligrafia bela não corresponde, necessariamente, a inteligência elevada. Sei também que o contrário não é verdade. Aliás, farto é o número daqueles que emburreceram (e mesmo se acanalharam) por cultivarem desleixadamente a feiura disforme e a imprecisão para com as letras que, em muitíssimos casos, são inelegíveis até mesmo para os seus autores.  Porém, não conheço ninguém que tenha tido sua inteligência degradada por ter cultivado atentamente a beleza e a precisão na feitura desta arte.

Resumindo, isso tudo não passa de um sinal que denuncia o terrível império de egos pacóvios extremamente sensíveis que não querem ser contrariados e muito menos corrigidos por imaginarem que eles são em sua nulidade o centro irradiante da realidade.

Pax et bonum
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