DO OLHAR PROFUNDO ÀS PALAVRAS VAZIAS


Escrevinhação n. 945, redigido em 08 de maio de 2012, dia de São Vitor e de Santo Acácio.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Muitas das vezes fico parecendo um disco furando, insistindo sempre na mesma nota de um velho fado. Sei disso. Mas, se assim o faço é por julgar que este ponto continua enroscado e é obvio que não imagino que esta mísera missiva irá por fim ao problema como também não nutro a mais leve esperança nesta direção.

Dito isso, vamos ao ponto: se há um troço que, de fato, estupidifica o indivíduo é o cultivo da tal criticidade. Afirmar isso, atualmente, soa como uma nota em descompasso frente à sinistra orquestra que embala a educação brasileira. Sim, não apenas sei disso como não tenho o menor intendo de fazer parte deste infausto concerto fúnebre.

Mas, porque o estímulo a tal criticidade é tão nefasto? Por que o incentivo a ter, como se diz, suas próprias opiniões, é algo tão malfazejo? Simples: qual o trabalho necessário para se “ter” uma dita cuja dessa? Sejamos francos: nenhum. Basta repetir um monte de frases feitas que você será visto como uma pessoa crítica, sabida, com opinião própria, mesmo que você não saiba o que está dizendo, de fato. Mesmo que suas opiniões sejam apenas um reflexo pálido daquilo que todos repetem simiescamente.

Tal quadro seria cômico se não fosse trágico, visto que, quando cultivamos um grande apreço pelas palavras vãs que tanto insistimos em pronunciar como sendo nossas sem nunca termos parado para dedicar a elas um mínimo de tempo para saber o que realmente elas dizem é porque, simplesmente, desistimos de conhecer qualquer coisa que seja mais importante que o nosso diminuto ego tão inflado pelo nosso patético orgulho.

Trocando por miúdos, não há possibilidade de conhecermos qualquer coisa se nossa atenção está voltada fundamentalmente para as impressões truncadas que temos sobre tudo (inclusive sobre nós mesmos). Impressões essas edificadas com base em nosso desdém pelo esforço que o ato de conhecer exige.

Não é possível enchermos uma xícara de chá se ela está tomada até as beiradas de excremento. E assim somos nós com a alma dominada por esses estranhos sombrios que nos habitam que chamamos amorosamente de nossas opiniões. Estranhos esses que são tão nossos que não sabemos dizer, quando, como e através do que, ou de quem, eles chegaram até nós.

Isso mesmo! Experimente, se você tiver coragem, submeter todas as suas ditas opiniões a esse simplório inquérito. Faça sozinho, pra não passar vergonha, uma lista desses trambolhos (suas opiniões) e pergunte, pra si mesmo: (i) Quando isso passou a integrar minha vida, a ser meu? (ii) Como, de que maneira, em que circunstância isso ocorreu? (iii) Quem, ou o que, me influenciou para que aderisse, ou aceitasse, isso?

É, cara pálida, e você ainda tem a desfaçatez de me dizer que esse opinativo trem fuçado é seu. Como diria o Seu Omar: Hum! Trágico!

Pax et bonum
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