A FERIDA QUE NÃO CICATRIZA


Escrevinhação n. 943, redigido em 24 de abril de 2012, dia de São Fidelis de Sigmaringen, de São Bento Menni, de Santa Maria Eufrásia Pelletiere da Bem-aventurada Maria Isabel Hesselblad.

Por Dartagnan da Silva Zanela


A unidade de medida utilizada pelo brasileiro médio, em regra, são as parvas dimensões de sua visão umbilical. Infelizmente, essa é uma realidade tangível a todo aquele que não desistiu de enxergar o mundo a sua volta com os próprios olhos.

Nesta semana, sem querer querendo, acabei por ouvir uma rasteira conversa, onde um dos interlocutores, com todo aquele ar de sapiência fingida, afirmava olimpicamente que os pais de uma criança anencéfalas a criavam, amorosamente, por egoismo e ponto final. Isso mesmo! O amor abnegado e comovente do casal Schmitz, segundo este biltre, seria uma clara demonstração de egoismo. Provavelmente, não ocorreu a esta mente iluminada que o egoísta poderia ser ele que não apenas deseja impôr a sua visão “antropológica” a toda humanidade, visão essa que, inclusive, autoriza o extermínio de todos aqueles que não se enquadram em sua concepção de humano.

Outro caso, no mínimo curioso, coletado ao acaso na web esfera, são as afirmações que versam por uma calhorda vereda hedonista. Sim, para os preclaros desta lavra, uma vida onde tenhamos de carregar um fardo como esse, uma criança deficiente, com anencefalia, é algo inumano e, por isso, deve-se sim, assassinar o inocente indefeso para diminuir o sofrimento da família. Um gesto humanitário, segundo eles.

Todavia, pergunto: matar o feto anencéfalo irá reparar ou aliviar, realmente, o sofrimento dos pais? Aliás, há vida humana liberta de sofrimentos? Ou então, será que ocorreu a essas mentes indagações como: o que será que podemos aprender com a presença de um Ser Humano como esse sobre o sentido da vida? É, meu caro Watson, a vida é bem mais ampla que nosso reles prazer e muito mais profunda que o nosso parvo medo de sofrer.

Podemos aprender, e muito, com o famigerado sofrimento, se não formos um tolo hedonista ou um utilitarista tapado. Não? O anencéfalo apenas vegeta? Então vejamos o que podemos aprender com as palavras da senhora Joana Schmitz, mãe de uma menina anencéfala de dois anos de idade. Diz-nos ela: “[...] você já acordou de madrugada com uma planta chorando de cólica? Você já pegou uma planta no colo e ela abraçou seu pescoço bem apertado até você sentir sua respiração bem próxima ao seu peito? Você já fez carinho em uma planta e ela sorriu e suspirou? Você já teve dificuldade em limpar as orelhas de uma planta porque ela tentava fugir de você e empurrava sua mão?”

Por essas e outras que aprendo muito mais sobre o que significa Ser Humano com essa família e sua pequena anencéfala do que com os doutos que dizem o que pode e o que não pode ser classificado como um ser humano portador de direitos. Enfim, ao testemunhar a decisão tomada pelo STF vejo vivamente à paixão de Nosso Senhor sendo vivida, silenciosamente, por esses inocentes condenados por essa iníqua decisão.

Pax et bonum
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