O PAÍS DAS LATINHAS

Escrevinhação n. 931, redigido em 31 de janeiro de 2012, dia de São João Bosco, São Pedro Nolasco e de São Francisco Saveiro Maria Bianchi.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Monteiro Lobato, esse aquilatado homem que dedicou sua vida às letras e ao Brasil, disse certa feita em entrevista concedida a Celestino Silveira, que nosso país em muito lembra a estorinha da tribo africana que cultuava latinhas. Diz-nos ele que nesta tribo, após a partida de um grupelho de ingleses, ficaram espalhadas pela tribo latas de toda ordem, desde latas de sardinha até algumas de caviar.

Porém, os nativos achavam aquelas latinhas a coisa mais linda do mundo e passara a se ornar com elas. O Chefe usava a maior. Os seus “chagados” meia-dúzia, os guerreiros umas três, o xamã e seus familiares quatro e o restante da tribo nenhuma.

Bem, tais latinhas esvaziadas de conteúdo e de beleza duvidosa seriam equivalentes análogos aos nossos títulos e diplomas. Existem inúmeras latinhas que são cobiçadas em nossa sociedade. Naturalmente, umas são mais vistosas que outras, porém, o conteúdo é sempre o mesmo: o vazio macambúzio da alma brasileira que visceralmente é avessa ao estudo, irascivelmente arredia ao devotado amor à procura pelo conhecimento.

O desprezo que o brasileiro têm pelo saber é tamanho que, nestas paragens, o ato de ler é visto apenas como uma obrigação que deverá ser cumprida sob risco de punição. Fora deste contexto, dizer a alguém (mancebo, adulto ou geronte) que ele poderia ler esse ou aquele livro soa aos ouvidos da turba brasilis como um insulto imperdoável. No entendimento médio dos diplomados desta pátria afirmar que a leitura é um elemento inerente a permanente formação do caráter de um sujeito não passa de um exibicionismo e que não há nem a mais mórbida necessidade de se debruçar sobre laudas e laudas escritas.

Não precisam, imaginam, por crerem que, como vou dizer, eles são seres dionisicamente iluminados e que tudo compreendem sem nada saber. Basta que afirmem, e que um punhado de doutos estultos como eles confirmem, suas levianas palavras para que se sintam acima da razão ao mesmo tempo em que abdicam do exercício dela.

Por isso, se me perguntassem qual seria a grande chaga de nossa sociedade, sem pestanejar, responderia que seriam duas as bestas que devoram nosso país. A primeira é essa ignorância presunçosa que se esconde por meio de títulos e diplomas que lhe permitem uma relativa ascensão social ao mesmo tempo em que estabiliza uma vertiginosa depreciação do caráter de seu portador. Em decorrência disso, temos a inveja, que destrói tudo aquilo que estes sintam que os humilhe com sua presença, por revelar-lhes o quão pífia é essa existência rodeada de distintas latinhas.

Enfim, faz-me rir quando ouço essas almas sebosas falarem de suas excelsas futilidades como se elas fossem medalhas de elevada distinção. Eis aí, por fim, a vergonha que ninguém quer assumir.

Pax et bonum
Site: http://dartagnanzanela.k6.com.br
e-mail: dartagnanzanela@gmail.com

Comentários