FORJADOS PELAS MÃOS DE CRONOS

Escrevinhação n. 933, redigido em 06 de fevereiro de 2012, dia de São Paulo Miki e companheiros, de São Gastão, de Santa Dorotéia e dos Bem-aventurados Afonso Maria Fusco e Francisco Spinelli.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Somos o uso que fazemos do tempo. Ponto. Discursos pomposos entoados para disfarçar o seu mau uso, não passam de autopiedade disfarçada e todas essas plumas e paetês retóricos, quando confrontados com os usos e abusos feitos revelam toda a sordidez hipócrita que há em nós.

De longa data, Gabriel Tarde, grande sociólogo contemporâneo de Durkheim, nos chama a atenção para a tônica das conversas cotidianas que, em regra, são permeadas por assuntos presentes nos ofícios dos interlocutores e, quando esses referiam-se a outros temas, sempre o fazem analogamente às lides de seu trabalho, reduzindo a complexidade da realidade a pequenez de suas vidas cotidianas como se o mundo devesse ser tão pacóvio quanto a sua estulta compreensão.

Esse fenômeno, de reduzir a complexidade do real à escala do cotidiano, na sociedade hodierna agrava-se de maneira significativa frente a presença atávica da programação televisiva na vida dos indivíduos que tem o seu horizonte de consciência puerizado com os simulacros da realidade que hoje incrementam formidavelmente as vazias conversas cotidianas com o que há de mais banal e fútil que possa ser expresso e comunicado pela degradada alma humana.

Deste modo, em um misto de colóquios sobre os plúmbeos ares de nosso labor com comentários apatetados a respeito dos mais variados espetáculos que nos são exibidos pela telinha encantada, temos o nosso tempo ocupado com as imagens que alentam a nossa alma e que muito bem refletem aquilo que somos em nossa íntima solidão. Por mais que disfarcemos, por mais que procuremos macaquear ares de uma superioridade inexistente, essa baixeza faz-se revelar nas entrelinhas da máscara discursiva que utilizamos para nos esconder de nós mesmos.

Ocultação não de nossos pares que, diga-se de passagem, são tão ocos quanto o reflexo que nos assombra no espelho todas as manhã, mas sim, para nos esconder de nós mesmos, acreditando na mentira que contamos para todos.

Cá entre nós, todos estamos cônscios deste quadro, porém, não queremos reconhecer a presença disso em nós. É muitíssimo mais cômodo projetarmos esse mal em outrem, em entidades abstratas, e continuarmos em nossa cotidiana mediocridade do que realmente ocuparmos nosso tempo de maneira condizente com a dignidade que é inerente à pessoa humana e que tão vivamente insistimos em desprezar com o mau uso que fazemos do nosso tão precioso tempo.

Pax et bonum
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