UM BALANÇO GERAL

Escrevinhação n. 926, redigido em 27 de dezembro de 2011, dia de São João, Apóstolo e Evangelista.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Todo ano novo, nós, brasileiros, de um modo geral, escancaramos o ser macunaímico, a infantilidade latente da moralidade de nosso ethos societal. Sociedade esta que, com todas as suas forças, nega-se a atingir a maior idade, idolatrando a sua inconstância moral.

Feito crianças que acreditam na existência de papai Noel e na presença terrificante da Kuka nas redondezas, adultos de todas as tribos apegam-se a uma mandinga, a uma superstição, como se o pio respeito a esta, ou aquela, fosse mover forças cósmicas que conspirariam a nosso favor, transmutando nossas vidas em algo mais benfazejo, similar ao nosso velho Macunaíma que depositava todas as suas esperanças nas forças telúricas da pedra de Muiraquitã.

Obviamente, não estou culpando as superstições pela baixa moralidade brasileira. O que estamos afirmando é que o frenesi em torno dessas, nas vésperas do ano nascente (com direito a dicas televisivas) é um sintoma da enfermidade da alma brasileira que, ainda, não atingiu a maturidade moral necessária para assumir a responsabilidade pela sua vida, pelo seu destino, preferindo crer que esta poderá ser resolvida se for tutelada por terceiros representados por forças ocultas ou por sujeitos que se apresentem como sendo um Muiraquitã Pantocrator.

Este ano, 2012, será mais um ano eleitoreiro onde celebraremos a nossa incapacidade cívica em nossa patética procura por um Salvador desta Pátria sem patriotas e, neste cenário, o terrível não é o vale tudo pelo voto espetáculo. Esse é apenas um ridículo detalhe e nada mais. O terror reside mesmo na imagem das propostas que são apresentadas com toda aquela pompa de “otoridade”. Propostas estas que claramente apresentam os seus proponentes como sendo uma espécie de “pai de todos”, um demiurgo que irá recriar tudo e, quanto a nós, cidadãozinhos, como incapazes, infantilizados, que não sabem agir em nome do bem comum, por desprezarmos o que nos é comum e por ignorarmos o que é o bem.

E, se este cenário repete-se, ciclicamente, a cada quadriênio, não é tão só pela sua eficiência retórica, mas também e principalmente, porque há nele um reflexo claro de nossa baixeza, de nossa incapacidade de assumirmos de maneira responsável as rédias de nosso destino, preferindo preteri-las para que as “otoridades” as assumam e, deste modo, continuem sendo nossos senhores e nós, seus ranhetas e indignados súditos.

E, contra isso, meu caro Watson, não há mandinga que nos defenda.

Pax et bonum
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