DO ÓCIO ALIENANTE AO TRABALHO DELIRANTE

Escrevinhação n. 903, redigido em 16 de agosto de 2011, dia de São Estevão da Hungria, de São Roque e de São João Francisco Régis.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Um tema freqüente nos colóquios entre os entendidos dos problemas de nosso país é a força alienante que o trabalho, da rotina que nos são impostas por ele, exerce sobre nossas vidas. Todavia, quem disse que é o ofício o centro pulsante da realização da pessoa humana? Este, em si, faz parte, porém, não é o cerne da realização da pessoa humana. Aliás, o culto idolátrico da carreira como ponto nevrálgico da existência humana é, por si mesmo, de uma força alienante avassaladora.

Doravante, se formos francos, em um ofício, um dos elementos fundamentais de sua prática, é o fato dele ser um meio que nos permite obter os recursos materiais para que possamos viver e, consequentemente, realizar algo que encontra-se além dele e, este além, sim, poderá nos realizar como pessoa. Realização essa que dar-se-á não no âmbito do trabalho, mas sim, naquilo que hoje convencionou-se chamar de tempo livre.

Tchan, tchan! O fardo do homem moderno não está na rotina profissional, mas sim e principalmente, no fato dele não saber (e de certa forma não quer) o que fazer em seu tempo livre além de entregar-se tolamente ao ócio superficial, preenchido com algumas camadas de lazer degradante que o atola mais e mais em sua miséria existencial.

A cena mais corriqueira da sociedade hodierna é aquela onde visualizamos uma pessoa, saindo de seu trabalho com os ombros caídos, com as vistas cansadas, seguindo aturdida com passos derrotados, lamentando, solitariamente ou em grupo, suas frustrações em um alvoroço ininterrupto ou entre risos ululantes. Seja à frente de uma TV ou em uma mesa de bar com um cachorro engarrafado, lá está a imagem de uma alma que se permitiu derrotar pela imagem do tal do trabalho ideal sem nunca ter imaginado que o que há de mais precioso não está no trabalho, em si, mas sim, naquele precioso tempo que está para além da soturna rotina. Infelizmente, desperdiça-se esse tesouro tolamente com lazeres aparvalhados, sem conteúdo humano e sem medida digna.

O ofício, seja ele qual for, apenas exigirá de nós o que é da finalidade dele e não o que é o propósito da realização plena de nossa vida. Por isso mesmo, não fiquemos como um garotinho, lamentando o que não realizamos profissionalmente. Despenda essa energia naquilo que você pode realizar por e em você em seu tempo livre que, diga-se de passagem, não é pouco. De mais a mais, tempo é questão de gosto, não é mesmo? Falando nisso, como anda o seu?

É, meu caro, há mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã rotina.

Pax et bonum
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