NOTAS SOBRE A CRISE DA CIVILIZAÇÃO

Escrevinhação n. 891, redigido em 30 de maio de 2011, dia de Santa Joana D’Arc, São Fernando III e São José Marello.

Por Dartagnan da Silva Zanela.


O esforço da meditação, da procura pela compreensão, costuma remunerar generosamente aqueles que o empreendem com coragem. Assim nos ensina essa hercúlea alma que é o Pe. Leonel Franca S. J., em seu livro A Crise do Mundo Moderno (1951). Neste sentido, convidamos o amigo leitor a caminhar conosco por esta via que tem por intento meditar sobre algumas questões que julgamos fundamentais para compreensão do trágico cenário em que nos encontramos.

O mesmo padre nos chama a atenção, na obra citada, para a gravidade da situação que não tem, naturalmente, implicações meramente imediatas e ocasionais. Os problemas que hoje assolam nossa civilização são advindos do fato destes estarem fundando nossa vida em princípios e valores equivocados. São sob valores e princípios que nós temos o nortear de nossas ações. Mesmo que os desprezemos são eles que fundam não apenas nossas escolhas, mas também, dão sentido a nossa vida.

Aliás, Leonel Franca, em artigo publicado na revista A Ordem (abril/1943), tece algumas considerações sobre o próprio sentido da idéia de civilização, sobre o ser civilizado, que teria como um de seus primeiros aspectos o esforço, o trabalho para se chegar a um termo, para atingir um resultado, um horizonte que seria a visão do que entender-se-ia como plena realização do ser humano. Esse realizar-se, por sua deixa, apresenta-se aos indivíduos como um ideal do que há de mais elevado e sublime na humanidade, como um símbolo das possibilidades máximas de realização de um ser humano.

Neste sentido, se formos meditar com a necessária serenidade que a questão exige, constataremos o quão profunda é a crise que assola a nossa civilização. Não temos apenas uma troca de valores e de modelos que os representam, como tivemos em outros ciclos culturais. Temos sim uma gravíssima inversão na ordem dos valores mais elementares da vida humana.

Um traço gritante desta questão, que literalmente clama aos Céus, é a total aversão a tudo o que é superior. Esse desprezo, como já havíamos assinalado, não reflete, de modo algum, que nossa sociedade atingiu os mais elevados píncaros do desenvolvimento humanos, mas sim, que preferimos nos fechar, de modo demente, em nossos mundinhos umbilicais e nos auto-proclamar plenamente humanos, ao mesmo tempo que nos entregamos a total bestialização de nossa pessoa.

Bem, sem mais delongas, vamos à alfinetada: é nojenta a maneira como muitas personas se referem as grandes obras literárias, desprezando-as, declarando que estas nada tem a nos ensinar sobre a vida, visto que foram escritas em outra época. Isso sem falar, que nelas usa-se um vocabulário incompreensível pelos sábios homens hodiernos. Pois é, vejam só o que é a presunção de almas infectas de uma época decadente. O nosso vocabulário é raso e miserável em um nível tão ululante que não somos capazes de acessar (quem do diga compreender) as grandes obras da literatura universal e vemos nesta estultice um sinal de evolução lingüística. Que coisa.

Não nos irritemos não. Uma das crenças presentes em nossa época é que somos superiores a humanidade que nos antecedeu não porque compreendemos o que eles fizeram de melhor, mas sim, porque somos apenas capazes de usar uns brinquedinhos tecnológicos para nos entreter e nos estupidificar. Isso mesmo! Todas essas maravilhas tecnológicas, que hoje são acessíveis a boa parte da população, apesar de serem potencialmente úteis, são reduzidas a reles brinquedinhos em nossas mãos. Não? Então qual é o sentido que você dá para essas maravilhas modernas que hoje se fazem presentes em sua vida? Chato, não é mesmo? Somos capazes de mandar uma mensagem para qualquer um em poucos segundos, mas não somos capazes de entender a mensagem que nos é transmitida pela literatura universal. Putz! Que raio de superioridade é essa?

Meu amigo, céus e terras passarão e nossas palavras, a decrepitude de nossa época, junto com eles irão, caindo na lata de lixo das Eras. Porém, tudo aquilo que representa legitimamente a humanidade permanecerá, mesmo que continuemos a desprezá-los. Entretanto, o que de digno sobrará de nossa Era para contar história?

Pax et bonum
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