DA ELOQÜÊNCIA DO NÃO DITO

Escrevinhação n. 875, redigido em 26 de fevereiro de 2011, dia de Santa Paula M. Fornés e de São José de Calazans, de Santo Porfírio de Gaza e de Santo Alexandre do Egito.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"A boa ordem se impõe pela disciplina."
(Sto. Agostinho)

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O carnaval está aí. Próximo também está o tempo da Quaresma. Momento de grande significado para Cristandade que marca todos os anos que se seguem por esse vale de lágrimas.

Sim, é um tempo de penitência e este tem um papel fundamental em nossa formação espiritual. Apesar de muitas vozes influentes, de maneira leviana, colocar o jejum em uma posição secundária em nossa formação nós, de nossa diminuta parte, julgamos tal recomendação além de contraproducente, danosa.

Tal observação carece, ao menos, de uma modesta explicação, a qual intentamos, dentro de nossas limitações, expor através destas parvas linhas.

Primeiramente, a orientação para a realização de jejuns nos é dada diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo que nos ensina essa prática através de Suas pias palavras e de Suas gloriosas ações. Basta folhear as sagradas páginas da Escritura que iremos constatar o obvio ululante: devemos jejuar sim senhor. Devemos, necessariamente, nos penitenciar para nos salvar, conforme nos ensina a via de santificação que nos é apresentada pelo Logos divino encarnado.

Ademais, quando voltamos nossas vistas para a multidão de Santos que nos são apresentados pela Santa Madre Igreja percebemos, em suas biografias, que uma das marcas singulares de todas essas aquilatadas almas era a prática estrita do que nos é recomendado pelo Verbo divino encarnado, dedicando-se à oração, à esmola e ao jejum. E ponto.

Mas, por que jejuar quando tantos passam fome? Certa feita ouvi essa indagação sendo pronunciada com um grande tom de ironia e pífia superioridade moral. Bem, poderíamos mudar a indagação e proferi-la do seguinte modo: por que o Verbo divino encarnado sendo Deus optou em viver, entre nós, uma vida de penitência e nos instruir para que assim procedêssemos? Creio que assim a pergunta torna-se mais apropriada e, naturalmente, a resposta também.

Dito isso, procuremos então seguir com nossas reflexões, sendo essas devidamente guiadas pela máxima de Jack: por partes. Primeiramente, devemos sempre nos lembrar que, através de Cristo, Deus não apenas nos revela Sua natureza, mas também, nos mostra a verdade sobre o ser humano através da maneira como Ele viveu entre nós. Ou seja: ao volvermos nossos olhos para o Cristo não estamos diante apenas da imagem amorosa de Deus, mas também está-nos sendo apresentado um retrato verdadeiro e singular de um homem que viveu de acordo com Aquele que é o amor.

Muito bem, e onde entra o jejum nisso tudo? Enquanto um gesto onde nós, pecadores, aprendemos a reconhecer as nossas limitações e faltas que Ele conhece muito melhor do que nós. O jejuar gera em nós um estado de espírito singular. A dor gerada pela ausência pão em nosso ventre nos leva a refletir sobre inúmeras questões que, muitas das vezes, não nos ocorreria enquanto estamos em estado de relativa saciedade.

Mas, que questões seriam essas cara pálida? Não sei. Cada qual tem o seu próprio fardo, tem a sua própria cruz e, naturalmente, vemo-nos imersos em conflito perene com tormentos que nos são muito próprios. De mais a mais, não é nosso intento apresentar as questões que são frequentemente indicadas pelos Santos e Místicos, mas sim, lembrarmos que determinadas indagações e, evidentemente, o acesso a determinados conhecimentos, só nos são possíveis quando aceitamos nos entregar de maneira confiante as instruções que nos são ministradas pelo Mestre dos mestres para que tenhamos contato com uma experiência mística singular que deve ser vivida por nós, periodicamente, para nos conhecermos e, deste modo, crescermos em espírito e verdade.

No mínimo, meu caro, estaremos testemunhando em que medida somos capazes de nos assenhorar de nossas paixões ou em que nível se encontra o poder destas sobre nós. Sendo um pouco mais otimista, com essa experiência poderemos ver o quanto que nossa vontade é tíbia e com que facilidade ela verga diante dos mais ínfimos obstáculos. Trocando por miúdos e, neste caso, literalmente, poderemos ver em que grau nosso ânimo é mais fraco que nossas súplicas viscerais.

Por fim, esse é o convite que nos é feito pelo Cristo. Convite este feito através de gestos e palavras. Mas, é claro que, hoje em dia, muitos imaginam-se maiores que Aquele que se fez pequeno para salvar esses pseudo-gigantes orgulhosos que somos e que, imersos nesta ilusão, fecham a alma em sua colossal e ranheta pequenez, não é mesmo?

Pax et bonum
Site: http://dartagnanzanela.tk

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