AS GAVETAS MOFADAS DE NOSSA ALMA

Escrevinhação n. 878, redigido em 18 de março de 2011, dia de São Cirilo de Jerusalém e do Bem-aventurado Faustino Miguez.

Por Dartagnan da Silva Zanela


"A verdade é o alimento da alma".
(Sto. Agostinho)

- - - - - - - + - - - - - - -

Há um belo trabalho do pintor espanhol Salvador Dali, de 1936, intitulado “O contador Antropomórfico” que muito nos auxilia na compreensão dos labirintos existentes em nossa alma. Labirintos estes desconhecidos por nós tanto quanto estamos perdidos neles sem ter um fio de orientação presenteado pelas mãos de uma bela Ariadne. A referida pintura retrata uma pessoa sem face em uma postura narcísica com sua caixa torácica formada por inúmeras gavetas entreabertas.

Creio que não há imagem que melhor retrate a alma humana que caminha vacilante pelas vias turvas da sociedade moderna. Primeiramente, porque em meio à massificação reinante a pessoa humana, em toda sua singularidade, vem dia após dia sendo suprimida por identidades grupais que supervalorizam a imagem da coletividade em detrimento da personalidade individual através da crença pífia de que essa primeira seja uma expressão decantada da segunda.

Simplificando: cai-se facilmente no sofisma de que quanto mais se macaqueia os trejeitos de um grupelho, mais fortalecemos nossa personalidade. Quanto mais afirmamos a soberania de uma ideologia ou dos ditames de uma entidade coletiva sobre nós, mais nos iludimos que estamos construindo uma sólida personalidade quando, no fundo, estamos apenas contribuindo para nossa destruição. Por isso, tal qual a pintura, vivemos sem face e abandonados na rua contemplando um vazio espiritual todinho nosso.

Doravante, temos as gavetas. As inúmeras gavetas. Essas são os fantásticos subterfúgios que criamos para nos esquivar de nós mesmos, para nos auxiliar na ilusão que vivemos. Escondemos de nós as verdades mais auto-evidentes no intuito de nos manter “firmes” na mentira ridícula que é a nossa existência, para continuarmos suficientemente convencidos de que nosso patológico estado de fingimento seja algo honorável.

É impressionante o quanto somos capazes de criar raciocínios para justificar erros, para nos esquivar da responsabilidade por nossa existência eviterna. Tais raciocínios são mesmo como gavetas embutidas na alma que confeccionamos para esconder dos demais e, principalmente, de nós mesmos, as realidades mais patentes sobre nossa pessoa.

E como se procura eximir-se das próprias culpas na sociedade atual. É de entristecer as vistas vermos pessoas adultas, muitas delas ocupando cargos de responsabilidade, portando-se de modo similar a uma criança de cinco anos de idade, escondendo-se atrás de outra pessoa, que se esconde atrás de outra, e de outra, até encontrar um bode-expiatório perfeito para que todos possam culpá-lo por todas as culpas que seriam unicamente suas.

Apenas para ilustrar o quão degradante é o estado em que se encontra nossa maneira de viver, pensar e agir que peço vênia para realizar uma sucinta comparação. Quando estava em seu leito de morte, Filipe II, rei de Espanha, chamou seu filho abriu o mando real com que se cobria e mostrou-lhe o peito roído de vermes, declarando: “Príncipe, vede como se morre e como se acabam todas as grandezas deste mundo”. De mais a mais, o mesmo rei dizia que preferia ter vivido como um eremita que ter tido de arcar com as responsabilidades de um reino e ter de carregar todo o fardo de culpas que ele tinha. Esse, meus caros, era um rei, um governante por inteiro. Atualmente, o que temos? Temos figuras como o senhor Luiz Inácio Lula da Silva, homem que afirmava não ter pecados, que não sabia de nada do que estava ocorrendo em seu palácio, em baixo de suas barbas, e que ele teria apanhado, durante sua governança, mais do que Nosso Senhor Jesus Cristo.

Esses ditos, por si só, nos apresentam uma imagem deprimente de um homem totalmente perdido dentro do labirinto de mentiras e dissimulações presente em sua alma. Mas, tais afirmações, não apenas nos dizem isso. Elas também são um claro sinal do estado pútrido da sociedade brasileira que, ao testemunhar todas essas dissimulações sinistras, não se manifestou em contrário e nem mesmo percebeu a gravidade do que estava diante de seus olhos, visto que, para uma sociedade onde, em sua totalidade, os indivíduos encontram-se perdidos em meio as suas gavetas de simulacros, como esperar que esses percebam o clima insano que impera em nosso país?

Pessoas que temem a verdade não estão aptas a reconhecê-la. Pessoas que negam a primazia da verdade na estruturação da vida jamais tornar-se-ão uma pessoa verdadeira. Uma sociedade que funda-se na primazia da dissimulação, no fingimento e no desdém à responsabilidade individual jamais será uma sociedade que edificará algo que mereça algum respeito, visto que, no Brasil, de um modo geral, ama-se o que mereceria o nosso desprezo e despreza-se o que deveria ocupar o centro de nossa vida, não é mesmo?

Pax et bonum
http://dartagnanzanela.tk

Comentários