UMA PEQUENA QUESTÃO

Escrevinhação n. 872, redigido em 08 de fevereiro de 2011, dia de São Jerônimo Emiliano e Santa Josefina Bakhita.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Sou responsável por aquilo que não fui". (Georges Bernanos)

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Em praticamente todos os cantos do Paraná vemos o retorno as aulas. Em todos os rincões desse Estado da Federação vê-se pessoas ansiosas para voltar a freqüentar as salas que existem para além dos umbrais que delimitam o espaço escolar. Agora, o que significa esse anseio? Será que todo esse sentimento é fruto da fome pelo conhecimento? Não sei e, para ser franco, não tenho interesse em especular sobre as intenções alheias. Todavia, creio piamente que seria de grande relevância que cada um investigue e medite sobre as suas intenções. Tal reflexão, se feita com abnega sinceridade, poderá render bons frutos para quem a ela se dedicar.

Dito isso, voltemos às aulas. Ao início delas. Sendo poucos ou não, sempre aqueles que se fiam pela vereda do caminho reto, almejam alcançar os picos mais elevados e, para tanto, estão dispostos a fazer os necessários sacrifícios para tal. Sim, essas almas são raras, já de longa data nos diz Platão. Tão raras quanto indispensáveis, pois são essas as pessoas que chamam para si a responsabilidade por aquilo que estão fazendo e pelo que estão aprendendo.

Pois é, se há um conselho que creio ser aproveitável para aqueles que realmente desejam aprender, seria esse e nenhum outro, porque esse é o cerne do aprendizado de qualquer disciplina.

O estudo começa quando nos inclinamos voluntariamente às verdades que irão se desvelar às janelas de nossa alma para que essas possam adentrá-las e lapidar as crostas de ignorância que habitam em nós. Para tanto é fundamental que compreendamos e aceitemos humildemente o fato de que nós não somos maiores que a realidade. E, se desejamos crescer com o ato de aprender, é fundamental que tenhamos clara em nossa alma essa pequena verdade.

Se estivermos abertos para plenitude dessa via, não teremos como nos esquivar da necessidade de consagrarmo-nos ao conhecer, como nos aconselha Sertillanges. Aliás, como o mesmo nos diz, em sua obra “A vida intelectual”: “Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração, continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos”.

Por isso a responsabilidade é um ponto nevrálgico nesse processo. Assim o é, porque o sujeito central no ato de aprender é aquele que chama para si a pecha do interesse pelo que está sendo estudado. Professores, livros, demonstrações técnicas, ensaios, práticas, tudo isso terá sentido e valia se na alma que deles for beber, realmente estiver cônscia do que ela realmente quer com tudo isso que estará sendo ensinado por esses agentes.

Lembro aqui que não estamos nos referindo a uma turma de alunos. Não mesmo. Um grupo de pessoas não assume, jamais, a responsabilidade por algo desta monta. Em grupo, para ser franco, é muito mais fácil de nos esquivar do ato de aprender e da responsabilidade a ele inerente. É mais fácil de dissimular que estudamos, praticando algo totalmente diverso, justificando todo um engodo através de um simulacro que mascara a realidade com os mais elevados (e fingidos) valores.

Sobre esse ponto, meu caro Watson, vale à pena lembrar o que nos ensina o filósofo Olavo de Carvalho. Esse diz-nos que: “Quanto mais incoerentes são nossas crenças, maior é o esforço de nossa vontade no sentido de dar um simulacro de coerência àquilo que não tem. Ora, se um indivíduo consegue fazer isto, quanto não conseguirá a coletividade? Nesta, você recebe o reforço de seus semelhantes e é protegido pela idéia de que, se erra, não erra sozinho, e de que tantos juntos não poderiam errar de maneira alguma. O auto-engano coletivo é mais eficiente do que o individual”.

Doravante, cada um de nós, pessoalmente, pode e deve assumir a responsabilidade pela sua educação e responder por ela como um sujeito que se vê cônscio de seus interesses e inquietações e que, por essa razão, deseja consagrar-se a essa devota atividade, que é uma vida de estudo, com toda a responsabilidade por ela requerida.

Pouco importa a idade que tenhamos, cada um de nós tem essa luz no interior de seu ser que pode ser avivada por nossa inspiração ou enfraquecida pela nossa lassidão. De um jeito ou de outro, a decisão será nossa. Se optarmos pelo justo caminho, seremos responsáveis pela nossa escolha. Agora, se optarmos pelo turvo caminhar, ainda assim, a responsabilidade continuará a ser nossa, mesmo que nos esforcemos em nos iludir, acreditando que a culpa é de tudo e de todos, menos daquele que é o sujeito basilar das decisões por nós tomadas. No caso, nós mesmos.

Pax et bonum
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