FINGINDO AMAR O QUE SE DISSIMULA TER

Escrevinhação n. 871, redigido em 31 de janeiro de 2011, dia de São João Bosco, de São Pedro Nolasco e de São Francisco Silveiro Maria Biachin.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Rogo a Deus como se esperasse tudo d’Ele, mas trabalho como se esperasse tudo de mim".
(Sto. Tomás de Aquino)

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“Reprovemos os erros, mas respeitemos as pessoas”. Assim nos ensina São João Bosco. E com os pés sob essa sentença, iremos pautar este breve colóquio. Para respeitar-se realmente a pessoa humana é fundamental que deixemos clara nossa reprovação aos erros. É inadmissível que se tenha a complacência para com o erro como sinônimo de respeitabilidade pela dignidade do indivíduo.

Entretanto, o que testemunhamos em nossa sociedade? O que vem sendo vivido e praticado nas últimas décadas em nossas instituições de ensino? Justamente o contrário do que fora afirmado acima. Por isso reafirmamos o que em outras ocasiões já havíamos apontado: um dos grandes males que paira sob essas terras de Pindorama, é a o fingimento endêmico e, neste caso específico, o amor fingido pela educação.

Esquece-se que educar não é sinônimo de ser “queridinho” e muito menos de posar de “defensor dos frascos e comprimido”.

Sim, educar é um ato amoroso, não meloso. Ensinar amorosamente é saber dizer não quando necessário. É saber repreender quando convém. Corrigir quando o erro manifesta-se, como também é saber ensinar com amor quando compreendemos que em algumas ocasiões é necessário punir certas atitudes tomadas pelos mancebos que nos são confiados, sejam eles nossos filhos ou nossos alunos.

Há quem evoque em contrário ao que fora apontado por nós aqui, a memória do filósofo grego Sócrates e mesmo a presença de nosso Senhor Jesus Cristo. Nada mais impróprio, como também nada melhor para demonstrar a leviandade dessas almas, visto que os ensinos de ambos apenas reforçam o que fora apresentado por nossa pena e tinteiro.

Se as almas que assim pensam conhecessem realmente os ensinos daquele que foi aclamado pelo oráculo de Delfos e tivessem lido os diálogos de seu grande discípulo, Platão, saberiam, claramente, que em nenhuma ocasião Sócrates exalta o bom-mocismo histriônico.

Aliás, lemos no diálogo Apologia de Sócrates, a seguinte recomendação para aqueles que ficariam responsáveis pela educação de seus filhos após a sua morte: “[...] castigai-os, atormentai-os com os mesmos tormentos que eu vos afligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um valor que não tenham, repreendei-os, como vos fiz eu, por não cuidarem do que devem e por suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós assim agirdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e meus filhos também”. Nossa! O que será que os pretensos “educadores” modernosos diriam para Sócrates por tecer essa recomendação?

Quanto ao Cristo, basta que leiamos com atenção os Santos Evangelhos e perceberemos que nunca nosso senhor utilizou-se de meias palavras em Seu divino magistério. Sempre foi franco e, muitas vezes, duro em Seu ensino. Aliás, o mesmo nos diz (Matheus V; 37) para que nosso sim seja sim e que seu não seja não e que o resto é subterfúgio do maligno.

Doravante, salve engano, o que nossa sociedade, como um todo, e nosso sistema de ensino, em particular, têm feito senão seguir um rumo turvo e duvidoso? O que Sócrates realmente diria a nós sobre esse quesito? O que temos a dizer ao Mestre dos mestres a respeito disso tudo?

Por isso que a vereda do ensino não é uma estrada que tem como horizonte a obtenção de popularidade. Não se deve ter como meta no ato de educar a obtenção de “x” pontos de audiência. Ensinar, consiste, na maioria das vezes, em arrancar o indivíduo do seu submundo umbilical para mergulhá-lo na realidade humanamente vivida. Para tanto, é imprescindível que o mancebo receba as ferramentas intelectuais necessárias para essa jornada e que saiba utilizá-las razoavelmente.

Agora, tratar um garoto, e mesmo um adolescente, como um ser frágil, delicado, que pode carregar um trincado terrível em sua personalidade no restante de sua vida por causa de um “A” desagradável que lhe foi dito, não é ensinar e muito menos uma demonstração de amor e de respeito para com a pessoa humana.

Quem elogia e apazigua o erro degrada tudo o que é digno. Corrigir o erro é libertar a pessoa do circulo vicioso em que ela está agrilhoada. Combater o erro é lapidar no indivíduo a dignidade que lhe é originária. Mas, para isso, é fundamental que saibamos dizer não. Que saibamos repreender o que não condiz com uma pessoa que pretenda crescer em dignidade, prestatividade e bondade. E mais! Além disso, é necessário que não tenhamos medo de agir assim, pois, quem ama, não teme desaprovação. Teme sim, que a pessoa amada se perca.

Se continuarmos a caminhar no parvo passo hodierno, estaremos sabotando não apenas a vida da tenra geração que está sob nossa tutela; estaremos solapando os alicerces de nossa sociedade, como nos ensina tanto Gustavo Corção quanto Chesterton.

Ora, se tememos preservar e nos negamos transmitir a herança civilizacional recebida, se não mais é nosso intento corrigir e lapidar os nossos jovens para que eles tornem-se senhores de sua vontade, o que estes se tornarão? Que tipo de homens eles serão quando estiverem crescidos? E mais! Perguntemos junto com o filósofo Julián Marías: o que as gerações educadas por aqueles que estão sendo educados por nós irão ensinar as gerações que estarão sob sua tutela? Já pararam para pensar nisso?

É esse o caminho que está sendo trilhado por nós, sejamos capazes ou não de ver os plúmbeos ares que existem no horizonte dessa estrada que, apesar de apelar constantemente para as palavras amor e respeito está muito distante de ser sinalizada por elas.

Pax et bonum
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