DESTRUINDO DE MODO CONSTRUTIVISTA

Escrevinhação n. 874, Redigido em 18 de fevereiro de 2011, dia de Santo Flaviano, do Bem-aventurado João de Fiesole e da Bem-aventurada Gertrude Comensoli.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Nada perturba tanto a vida humana como a ignorância do bem e do mal".
(Cícero)

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Certa feita, em um amistoso colóquio com um velho amigo, este, havia me perguntado qual seria, a meu ver, a maior chaga do século XX. Sem pestanejar, respondi-lhe laconicamente: o coletivismo. Oh raios! Mas exatamente o que seria isso? Para responder essa inquirição, nada melhor do que recorrermos aos ensinos daqueles que, muito melhor do que nós, compreenderam o referido problema.

No caso, quem me vêm à mente para iluminar esse quadro é Friedrich A. von Hayek. Não penso aqui em sua obra O Caminho da Servidão, mas sim, sem sua trilogia Direito, Legislação e Liberdade e na sua monumental Constituição da Liberdade.

Dito isso, partamos diretamente para o ponto que está ao centro dessa preleção. Coletivismo, em resumidas palavras, é quando em um grupo humano edifica uma super valorização de determinadas entidades coletivas abstratas em detrimento da pessoa humana concreta. Trocando por miúdos, é quando a dignidade originária de um ser humano é abolida em nome de uma suposta dignidade que é inerente a uma imagem grupal que aufere a si mesma os mais elevados valores e, a outras, os mais parvos. É quando não se vê mais a pessoa humana em primeiro lugar em sua individualidade, mas sim, vislumbra-se, unicamente, o rótulo político-social que uma entidade coletiva lhe impinge.

Não julgar-se-ia o indivíduo pela sua singularidade como pessoa humana, mas sim, pelo fato dele ser visto como um antagonista dentro da “perene luta de classes”, ou por ser “integrante de uma suposta raça”, ou por ser membro de uma “falange libertadora dos povos”, em fim, como havíamos dito acima, julga-se as pessoas pelo enquadramento que nossa mentalidade coletivista atribui aos outros e a si e não pelo que realmente são: pessoas.

Se houve algo que marcou tragicamente a centúria passada e que continua a macular este início do terceiro milênio, é a tal da mentalidade coletivista e da moral construtivista advinda desta. No correr do século que a pouco findou, o socialismo (uma refinada manifestação coletivista com uma expressão moral construtivista) ceifou mais de cem milhões de almas inocentes e seus representantes continuam a posar no atual cenário com todo aquele ar de superioridade moral hipócrita que lhes é tão característico e, naturalmente, continuam a propor seus projetos (e a aplicá-los em larga escala) de edificar um mundo melhor destruindo, é claro, tudo que seja contrário a estes.

Ah! Quanto à moral construtivista, que é inerente a toda manifestação coletivista. Essa simplesmente manifesta não o intento de preservar os valores que simbolizam a concretude do ser humano, mas sim, o turvo desejo de transmutar a natureza humana em algo que melhor se enquadre em sua visão coletivista da realidade. Neste caso, as palavras de Chesterton são muito ilustrativas, quando este nos diz que a diferença entre o poeta e o louco é que o primeiro coloca sua cabeça no mundo e o segundo esforça-se em colocar o mundo em sua cabeça.

E assim procedem todos os ideólogos, aposentados ou de plantão, em sua sanha de modificar o que desconhecem, ao mesmo tempo em que possam de, como eles mesmos dizem, “vanguarda revolucionária”, ou “intelectualidade orgânica”. Como diria Renato Aragão: “Aí, que meda!”

Tão obvio quanto dois mais dois são quatro é o fato de que todo indivíduo que se deixa amoldar por algo tão torpe acaba por se imbecilizar. E o pior é que o indivíduo que se integra a isso o faz crendo que está elevando-se aos píncaros do esclarecimento.

Sente-se assim não porque tenha compreendido a si mesmo e a realidade após um árduo esforço intelectual e uma grande labuta de estudos, não mesmo. Esses elementos crêem-se integrantes de uma vanguarda iluminada e, com base nesta ilusão, afirmam orgulhosamente sua ignorância intrínseca ao mesmo tempo em que cimentam suas mais “elevadas convicções”. Afirmam isso não com base na Verdade, mas sim, no apoio que a coletividade lhes transmite por meio do sentimento de solidariedade que é formado através do consenso grupal.

Por medo, para não dizer pavor, de ter de enfrentar a solitária jornada do conhecimento, muitos acabam aderindo voluntariamente a alguma espécie de coletivismo para que, deste modo, sintam-se confirmadas em seus erros, em sua desídia cognitiva, em seu perfídia intelectual, ao mesmo tempo em que passam a ver a si como sendo (i)legítimos arcanjos, anunciando uma nova era vindoura em que eles seriam a própria encarnação do bem e da justiça. Pois é, mais uma vez, repito: “Hum, que meda!”

Em fim, apesar do tom burlesco de nossa última fala, tal mentalidade, sim senhor, é realmente digna de ser temida. Mentalidade essa que encontra em nossa sociedade um fértil chão que é diuturnamente cultivado com valores construtivistas que são semeados pelos (de)formadores de opinião, pelo sistema de ensino e por nós, quando abdicamos de nossa consciência individual e da árdua tarefa de conhecer-se com presteza e sinceridade, para podermos, realmente, conhecer o que está a nossa volta e assenhorarmo-nos de nossa vontade. Mas, e quem realmente quer isso? Quem?

Pax et bonum
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