VITÓRIA PÍRRICA À MODA DA CASA

Escrevinhação n. 867, redigido em 04 de janeiro de 2011, dia de Santa Ângela de Foligno e de Santa Elisabete Ana Baylei Seton.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Para o triunfo do mal, basta que os bons não façam nada." (Edmund Burke)

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Sobra em nossa mídia à presença de “analistas” que não medem esforços em manifestar a sua patológica partidolatria (uma variante da Estadolatria a muito denunciada pelo finado Papa Leão XIII) em um misto com a mais pura e servil bajulação. Isso muito se deve a mentalidade tacanha que se assenhora em nossa sociedade, que elege como critério máximo de avaliação de algo a mera simpatia e antipatia que se tenha para com esse e aquele outro.

De um modo geral, é esquecida a pergunta que solicita a apresentação dos valores que justificam a simpatia e a antipatia em relação a isso ou aquilo. É natural que uma criança adote o reles gostar e desgostar como critério de apreciação do mundinho a sua volta, porém, quando estamos diante de um adulto, cheio de títulos e pompas, que avalia a realidade por estes critérios reduzindo a percepção do real à dimensão de seu mundinho surreal é algo que deve ser meditado com a devida seriedade. Pena que isso não ocorre.

Talvez, um caso interessante seja o último pleito eleitoreiro que consagrou nas urnas a senhora Dilma Rousseff. A massa ululante da grande mídia não se cansa de ufaná-la pela sua grande votação, pela sua popularidade, pela sua vitória que seria uma clara manifestação do desejo do povo brasileiro de ver a continuidade do governo petista. Bem, caminhando contra a corrente de bajuladores, atrevo-me a perguntar: será mesmo? Toda vez que folheio um jornal na internet vêm-me a mente as palavras do poeta portenho Jorge Luis Borges, onde o mesmo dizia que a democracia não passa de um abuso da estatística. No caso da sociedade brasileira, isso é mais do que verdadeiro.

Se não, vejamos: pelos dados oficiais apresentados a partir dos votos tidos com válidos, a atual Presidente teria sido consagrada nas urnas com 56,05% dos votos. Perfeito. Porém, sejamos um pouco mais ousados e adentremos nas vestes estatísticas para qualitativamente avaliarmos esse dado, mesmo que de maneira breve. A candidata petista, nas eleições de 2010 recebeu 55.752.092 de votos. Bem, então somemos o total de votos dos cidadãos que não mais estão de acordo com o rumo canhoto que vem sendo dado ao nosso país. Somemos: 43.710.422 confiados a José Serra (que lhe foram dados em sinal de rejeição a Dilma, não pelo mérito de sua pessoa ou de seu partido), mais 2.452.591 de votos brancos, mais 4.689.310 de votos nulos, mais 29.000.000 (aproximadamente) de votantes que não compareceram às urnas (pelas mais variadas motivações, mas, principalmente devido à “coincidência” do dia da votação ser próximo de um feriado). Noves fora zero, o resultado é: 79.852.353 de cidadãos que não querem mais saber do rumo rubro que vem sendo tomado em nossa pátria.

Lembremos ainda outro ponto que julgamos ser de significativa relevância neste caso. Vejamos: a abstenção no segundo turno desta eleição, segundo o TSE, foi recorde. Não apenas isso, meu caro. Não nos esqueçamos que nós vivemos em um país onde o voto é compulsório. Em um país onde se é obrigatório o comparecimento às urnas termos uma abstenção desta envergadura (pouco mais de 1/5 do eleitorado), dá-nos um dado bastante interessante a ser analisado, mas que, nem de longe foi abordado pelos pretensos analistas que estão muito mais interessados em adular a vitória petista do que refletir sobre o significado mais amplo deste pleito.

E tem mais. Se compararmos os votos recebidos pelo senhor Lula em 2002 com os que foram depositados na conta de Dilma em 2010, perceberemos que o crescimento do eleitorado petista foi pouco significativo nos últimos 8 anos. Em 2002 Lula recebeu 52.793.364 de votos. De lá pra cá, tendo a máquina Estatal em mãos e com o presidente fazendo campanha para sua candidata do Oiapoque ao Chuí, estes tiveram apenas um crescimento de 2.952.728 votos. Mesmo com todo o esforço despendido o resultado foi este. Sim, uma vitória, mas uma vitória pírrica.

Detalhe importantíssimo: Pirro, após sua vitória, teve de enfrentar a força do Império Romano e caiu. Quanto aos Petistas, quem realmente está disposto a enfrentá-los? Quem? Notadamente, no Brasil, a tibieza é geral, a incompreensão da conjuntura é absoluta, o oportunismo se faz reinante o que permite que as hostes petistas continuem indefinidamente no poder, gostemos ou não disso.

Doravante, mais uma vez lembramos através de nossa parva pena que o povo brasileiro é essencialmente conservador. Porém, não se vê no cenário político brasileiro canais para manifestar os valores que fundam a sociedade. Pior! Os canais existentes não estão aí para representar os valores da sociedade, mas sim, para transformá-los de acordo com os devaneios das pérfidas convicções ideológicas dos elementos que ocupam os canais de representação existentes.

Antes de findarmos, perguntamos: quem disse que o Estado está autorizado a transformar a sociedade? Sim, um Estado Totalitário arroga para si esse papel, mas não, um Estado Democrático de Direito, que deve apenas representar a sociedade e fundar-se nela. Por isso, meu caro Watson, como falar em democracia num país que não apresenta canais que representam os valores da sociedade, mas sim, apenas os valores de grupelhos que desejam transformá-la em algo que eles imaginam ser melhor? Aliás, quem auferiu esse poder as potestades reinantes? Eles dirão que foram as urnas. Sim, as urnas dizem isso na medida em que eles apresentam apenas o que lhes convém e não o que elas comunicam. E o que elas comunicam é algo bem diverso dos confetes e paetês ostentados pela grande mídia.

E mesmo assim a apatia e o desfibramento nesta terra de desterrados é geral.

Pax et bonum
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