O CANDEEIRO E A MARIPOSA

Escrevinhação n. 868, redigido em 18 de janeiro de 2011, dia de Santa Margarida da Hungria, de Santo Sulpício e de Santa Prisca.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. (Oscar Wilde)

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Recentemente o filósofo Olavo de Carvalho publicou no Dário do Comércio um artigo intitulado “Desejo de conhecer” onde o mesmo lembra-nos um dado ululante sobre nossa pérfida sociedade. O brasileiro, de maneira ampla, é avesso ao conhecer, não tem o menor amor pelo conhecimento, porém, nutre em sua mesquinha alma, uma idolatria desmedida pelos títulos e diplomas que representam a suposta aquisição deste desdenhado bem.

Trocando por dorso: vivemos no país do “eu acho”, na terra da tal da “minha opinião”, do “você sabe com quem está falando?”. Terrinha essa onde absolutamente nunca se pensa que para uma opinião poder ser emitida e respeitada deveria antes ser construída. Todavia, ouve-se um colóquio aqui, uma preleção acolá, um nhenhenhém mais adiante e tcha tchan! Temos mais um palpiteiro falando até pelos cotovelos, com todo aquele típico ar doutoral postiço, dando pitos, ministrando conselhos morais e orientações éticas para tudo e todos, sem ao menos, por um instante que fosse, ter levantado a questão que não quer calar, mas é amordaçada: “mas será que eu realmente sei do que eu estou falando”? Não. Isso não pode perguntar. Entretanto, falar sobre tudo sem realmente dedicar-se a conhecer algo, estampando o medalhão da criticidade fingida e diplomada, pode.

Naturalmente, os sujeitos mais estupidificados pela sua ignorância auto-impingida são justamente aqueles que mais se entregam de corpo e alma na defesa das idéias mais esdrúxulas crendo que, com isso, estão contribuindo para transformar o mundo em algo supostamente melhor. Entenda-se esse “algo melhor” como sendo um fruto de sua imaginação, ansiado pela sua falta de entendimento de si e do mundo. No fundo, o que estes apenas desejam não é transformar o mundo em algo melhor, mas sim, recriá-lo à sua imagem e semelhança.

Pois é, se estes senhores de olhar tão distinto quanto vazio parassem um pouquinho que fosse para francamente conhecerem a si mesmos, mais do que depressa iriam perceber a grande M que estão fazendo. Porém, os títulos, cargos e diplomas os ajudam a camuflar tudo isso.

Se eles realmente fossem sinceros para consigo mesmos, reconheceriam mais do que depressa esse vácuo que há na sustentação de seu parvo entendimento da realidade. Vácuo este que é preenchido por um reles sentimento de insatisfação, de revolta, de indignação, em fim, por um sedimento de fúria e inveja camuflado com as mais variadas fantasias “humanitárias” e “científicas” que disfarçam a mesquinharia que há nestes sebosos corações que, por covardia e ignorância existencial, estas “personas maravilhosas” se recusam encarar.

Esses elementos, quando defrontados com a realidade pérfida de suas almas, imediatamente nos perguntam: “então quer dizer que o mundo não deve ser mudado?” Não, cara pálida, a pergunta a ser feito é outra: então quer dizer que você não deve conhecer-se e tornar-se melhor para merecer esta vida? O silêncio diante desta segunda indagação mais do que denota o quanto que todos esses chiliques supostamente humanistas não passam de uma casquinha pútrida que encobre o vazio que há no indivíduo que se recusa a conhecer e conhecer-se, mas que tem um diploma, um título ou um cargo para ostentar.

Permanecer na ignorância de si, não transforma a realidade a nossa volta, mas permite que essas estranhas forças que nos habitam atuem, deformando nossa personalidade e, consequentemente, nossas ações.

Sim, somente a Verdade liberta. Somente a Verdade transforma. E se não procuramos a Verdade sobre nós, se não aceitamos a Verdade, como poderemos fazer algo bom? Mesmo assim cogitamos e justificamos ações que se encaminham por essa turva vereda por possuirmos um diploma ou por estarmos empossados em um cargo que nada significa de substancial.

Ainda, em certa feita o Papa Bento XVI havia dito que devemos lembrar que na última centúria, “[...] vieram tantos profetas, ideólogos e ditadores, que [...] criaram os seus impérios, as suas ditaduras, o seu totalitarismo que teria mudado o mundo. E mudou-o, mas de modo destruidor. Hoje sabemos que destas grandes promessas só permaneceu um grande vazio e muita destruição”. Aliás, sabemos mesmo? Queremos realmente saber?

É, nada melhor do que a ignorância de si para justificar os nossos erros. Nada mais conveniente do que justificar as nossas faltas na realidade que não compreendemos. Nada mais cômodo do que fingirmos conhecer e agir, dissimuladamente, através do nosso pueril saber. Como também, não há nada mais pérfido que isso.

Por fim, diz-nos Oscar Wilde, que as boas intenções têm sido a ruína do mundo. E continuarão a ser enquanto não tivermos a coragem de, todo santo dia, lutar silenciosamente contra essa nódoa que há em nós, amando o conhecimento mais do que aos títulos, cargos e diplomas.

Pax et bonum
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