A LUZ QUE ESTÁ PARA ALÉM DAS CHAMAS

Escrevinhação n. 868, redigido em 10 de janeiro de 2011, dia de Santa Léonie Françoise de Sales Aviat, Santo Aldo e Santo Guilherme de Bourges.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Ser fiel é não atraiçoar nas trevas aquilo que se aceitou em público”.
(Papa João Paulo II)

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Em seu livro “História do Futuro”, o sapiente Padre Antônio Vieira nos lembra que o ser humano é filho do tempo, que “[...] reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada”. Poderíamos ainda acrescer que pouco, ou quase nada, sabemos a respeito de nós mesmo por desprezarmos quem somos, quem fomos e quem haveremos de ser como fruto de nossas intenções e ações, pretéritas e presentes.

Bem, volvendo nossas vistas para o cenário cultural hodierno e, em especial, para o que se convencionou chamar de educação, percebe-se que as veredas hegemônicas em nossos dias não nos guiam para a correção desta má inclinação que há em nosso ser, mas sim, para que desdenhemos a presença dessa mácula afirmando uma auto-suficiência intelectual inexistente.

Basta ver o quanto que se enfatiza a necessidade de restrição as correções aos mancebos e a tola exaltação que se faz de seus saberes adquiridos espontaneamente. Partindo dessa prerrogativa, supostos entendidos em educação afirmam que os ditos (e não ditos) conteúdos devem ser adaptados ao aluno para que ele aprenda mais e melhor. Entretanto, o que vemos em nosso país como fruto desta impostura pedagógica? O contrário do prometido. Basta ver a colocação ocupada pelo Brasil no ranking do PISA. Muito disso se deve a essência dessa impostura pedagógica que pretende fazer com que a Verdade e a realidade sejam amoldadas e reduzidas ao sujeito e não o contrário, de permitir que o entendimento do indivíduo seja alargado através do amoldar deste às dimensões da realidade e da Verdade.

Supervalorizar nossas “verdades” subjetivas não contribui em nada na ampliação da compreensão da realidade e das Verdades sobre nós e a vida. Pelo contrário! Cimenta uma barreira que nos divorcia em absoluto desta por passarmos a imaginar que as nossas confusas impressões da realidade fossem a própria realidade. Por exemplo: imaginar que Machado de Assis é um chato não o torna um escrevinhador de quinta ao mesmo tempo em que eleva você à categoria de crítico aquilatado. Gostemos ou não, mesmo que imaginemos isso, continuaremos a ser um leitor medíocre que nunca escreveu uma carta descente para os pais e Machado, e sua obra, continuará a ser quem ele é.

Sim, a verdade não ofende, porém, a ignorância soberba e orgulhosa é um insulto a inteligência.

Em fim, o que fora apresentado acima é uma distinção tão simples que toda criança deveria ser treinada em sua prática ao ponto de incorporá-la. Todavia, a sociedade brasileira, em absoluto, a desdenha e se orgulha de tal impropério. Por essa razão, neste ínterim, lembramos as pias palavras do Papa Bento XVI que em sua homilia proferida na Paróquia Romana de São João da Cruz, nos admoesta sobre “...a necessidade de iniciar imediatamente a mudança interior e exterior da vida para não perder as ocasiões que a misericórdia de Deus nos oferece para superar a nossa preguiça espiritual”.

Sim, a proclamação e o ensino da Verdade são atos de misericórdia que, quando acolhidos, transformam nossa vida interior e exteriormente. Cada verdade aprendida passa a integrar o nosso ser ampliando o nosso horizonte de consciência, de compreensão de si e da realidade. Mas, para tanto, é fundamental que acolhamos virtuosamente esse gesto gratuito da misericórdia Divina.

Sim! Da Misericórdia Divina. Sobre este ponto, o finado Pontífice João Paulo II (em homilia proferida em 26 de janeiro de 1979 no México), nos orienta para que sigamos o exemplo da Virgo Fidelis. Tal qual a Santíssima Virgem, devemos BUSCAR o entendimento profundo da Verdade e, quando encontrá-lo, ACOLHE-LO humildemente. Após o acolhimento, devemos sinceramente viver com COERÊNCIA e CONSTÂNCIA o que fora aprendido para realmente nos distanciar das veredas da bestialidade.

Entretanto, o coração humano na maioria das vezes não se apresenta como um porto ansioso para que aporte em seu cais a caravela da Verdade. Aliás, como nos ensina, mais uma vez, o Padre Antônio Vieira, em seu Sermão da Sexagésima, há corações tomados por espinhos, pelas preocupações mundanas, com suas delicias e promessas de fortuna. Outros portam corações obstinados com seus erros (verdades pessoais) como pedras. E ainda há os corações inquietos entregues aos fluxos e influxos do momento, atormentados que não permitem ser iluminados e guiados pela verdade e, nesta confusão subjetiva, procura-se um caminho qualquer que alivie a alma, ignorando a realidade da humana ignorância.

Sim, para sermos plenamente humanos é fundamental que sejamos capazes de ouvir zelosamente as instruções ministradas pela realidade para que cresçamos em Espírito e Verdade na direção desta plenitude. É de basilar importância que a educação procure expressar e ensinar as vias da Verdade no horizonte da realidade e que se dê um basta em todo esse trololó ideológico marxista, com toda ordem de hostes materialistas, que tomou conta de nosso sistema educacional e dos canais de expressão cultural.

Infelizmente, como isso não ocorrerá, cada um pode dar um basta a toda essa maré de águas turvas para que possamos enxergar a realidade que há para além de nossa indignação miúda advinda de nossa ignorância a nos impingida com nossa total complacência por confundirmos o amor a sabedoria com a néscia bajulação ao nosso ego despido de sentido e inflado de vaidade.

Pax et bonum
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