ENTRE CARTAS GENTIS E ESPETÁCULOS DISFORMES

Escreinhação n. 864, redigido em 10 de dezembro de 2010, dia de São João Roberts.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Muito se fala sobre a cultura de massa. Aliás, todos falam de boca cheia toda ordem de horrores sobre esta, sem flagrar-se do imenso vazio que habita em sua alma. Intentar chamar a atenção dos críticos massificados da presença atroz da crítica soberania da cultura de massa em sua vida é o mesmo que teimar com um teimoso. Simplificando: perda de tempo.

Todos neste acampamento de exilados chamado Brasil vêem a si próprios como sábios incompreendidos, apesar de nunca terem dedicado uma parcela mínima de seu tempo para compreender qualquer coisa que seja. Principalmente aquelas figuras disformes que ostentam na parede do banheiro, logo acima da privada, um diploma de um curso superior, que apenas atesta o seu douto fingimento ignaro.

Por isso mesmo, falemos da massificação hodierna sem nela tocar. Façamos isso apenas cutucando as feridas pustulentas que chagam nossa alma. Nesta semana que passou, estava eu deitando minhas vistas em uma jóia que encontrei entre cascalhos: as cartas de Machado de Assis. De longa data aprecio esse tipo de leitura: a correspondência de hercúleas almas. Não apenas por causa de suas letras luminosas, mas para conhecer as pessoas com quem essas pessoas de grande envergadura trocavam figurinhas. E que figurinhas!

A esta altura, podemos nos indagar: o que isso tem haver com a bestialização cultural que impera em nossa sociedade e, consequentemente, em nossa alma? Será que lendo as correspondências de Machado, Eça de Queiros, Gilberto Freire e tutti quanti, iremos elevar a alma brazuca de sua pútrida cova? Não. Entretanto, tal documentação pode nos servir como um bom instrumento para mensurar a degradação da nossa alma. Aliás, para tanto, não há nem a necessidade de recorrermos aos grandes. Basta que vasculhemos o baú das lembranças familiares e tomemos em mãos as cartas de nossos avôs e comparar com os e-mails que trocamos com todos em um clima de grande futilidade.

Uma carta, quando era enviada para alguém, era tecida com toda atenção que é merecida ao destinatário e este a lia com a mesma. O papel era apenas um meio através do qual duas almas dialogavam francamente. Ah! E não nos esqueçamos (aqueles que são da minha geração) da alegria que invadia nossa alma quando recebíamos uma carta, seja ela de um amigo distante ou de uma mulher com quem estávamos flertando.

E é claro, devido a isso, todo cuidado era pouco na hora de redigir as laudas íntimas. Como iniciá-la? Que palavras utilizar? Como deveriam ser dispostas as frases? E depois de escrita, esta era lida e relida antes de ser postada. Da outra ponta, a mesma era lida, relida, e relida e, dependendo de quem fosse o remetente, cada palavra e suspiro ficavam registrados na alma do leitor destinatário, pois o conteúdo presente naquelas letras era muito mais que palavras e reles notícias. Eram o extrato de uma vida humana partilhada com outro ser humano que estava, mesmo distante, presente em nosso coração.

Feito esta experiência rememorativa e imaginativa, podemos então comparar esta com a forma que desenvolvemos a tessitura de nossos e-mails, com o conteúdo de nossas correspondências eletrônicas, com a leviandade que tratamos tudo isso juntamente com desprezo que edificamos em relação ao nosso destinatário. E olha que não me refiro tão só àqueles e-mails enviados e reenviados em massa para toda nossa lista de contatos com aqueles slides enjoativos. Refiro-me também aos e-mails que trocamos com aquelas pessoas que dizemos ser nossas amigas. Tais mensagens, não há dúvida, nos permitem manter contato com muitas pessoas, fazendo-nos presentes em suas vidas. Todavia, esses contatos estão tornando o quê, de nós, presente na vida dos nossos? De nós, realmente, com grande probabilidade, muitíssimo pouco. E este pouco, muitíssimo bem oculto (inclusive de nós mesmos) e perdido em meio ao conteúdo frívolo disponível no bazar da cultura de massa que é repassado por nós e este apenas revela a miséria que habita em nós e faz-nos ser o que somos.

Bem, e se ao findar desta missiva, as meninas de suas vistas estão contrariando o que aqui fora dito, então olhe para o interior de sua alma, para as vielas de sua vida e diga, a si mesmo, o que você tem de significativo em seu ser, o que você tem ultimamente partilhado com os seus que, de fato, seja seu. O que? Eis aí uma pergunta que, creio eu, merece ser devidamente meditada.

Pax et bonum
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