DESGRAÇA POUCA É BOBAGEM

Escrevinhação n. 863, redigido em 08 de dezembro de 2010, dia da Imaculada Conceição de Maria e do Bem-aventurado Alojzy Liguda e companheiros.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"É impossível calcular o dano moral, se é que posso chamá-lo assim, que a mentira mental tem causado na sociedade." (Thomas Paine)

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Vem chegando o fim do ano letivo e, com ele, o famigerado conselho de classe. Ontem mesmo, nas anotações que tomo em meu diário estava cá, com minha pena e tinteiro, a refletir sobre isso, sobre a desconcertante situação dos professores que entendem qual tipo de fruto deve-se colher nessa lavoura que é a educação ao mesmo tempo em que tem de enfrentar, nesta ocasião, uma assembléia demente que encena um simulacro chinfrim de bom senso.

Poderia aqui apontar vários exemplos testemunhados por mim e outros tantos que me foram relatados por pares de ofício que residem em outros rincões, mas não vou. Assim procedo em vista do caso recente que ouvi relatado no Talk Show True Outspeak do filósofo Olavo de Carvalho [www.blogtalkradio.com/olavo] que foi ao ar nesta segunda-feira, dia 06 de dezembro. Um de seus ouvintes ligou e desabafou o fato que segue: sua esposa leciona (ou lecionava) a disciplina de ciências para uma turma do Ensino Fundamental. Em uma de suas avaliações ela perguntou aos seus incautos alunos: “Quais são os estados físicos da água?” Resposta: “Quente, morno e frio”.

Até aí, nenhuma novidade, não é mesmo? Até parece um pequeno estrado do quadro “pérolas” do Programa do Jô. Entretanto, a equipe pedagógica da Instituição de Ensino a chamou para conversar e disse que ela, a professora, deveria considerar a resposta do aluno, visto que, ao menos, ele havia tentado responder a pergunta. Ele se esforçou e, por isso, merece ser regiamente premiado. É mole ou quer mais? Você queira ou não, tem muitíssimo mais que isso nesta lúgubre alcova, infelizmente.

Quem é professor já deve ter ouvido, mais de uma vez, sentenças como estas, onde reza-se que: “o senhor deve avaliar o aluno como um todo”. Ou então: “Você deve ver todo o contexto deste aluno, visto que, não podemos nos esquecer que tudo em educação é um processo”. E ainda: “Que você, como um educador crítico, deve valorizar os progressos feitos pelo aluno no correr do ano”. Bem, e por aí segue o andor maquiado com toda ordem de topus sem o menor requinte retórico. Simplificando a opereta: frasezinhas como estas são apenas maneiras diversas para se dissimular o fato de que a escola vem a muito apenas entregando diplominhas aos aluninhos mesmo que elezinhos não tenham objetivamente aprendido nada (ou quase nada) do que as disciplinas intentavam lhes ensinar. Tudo isso para que os numerozinhos das estatísticas da educação sejam mais vistosos do que a mísera realidade que eles fantasiam.

Perdoem-me a indelicadeza no uso das letras, mas desde muito aprendi com Confúcio e com o filósofo acima citado, que não devemos nunca privilegiar a fineza no trato em detrimento da verdade. Também não nos esqueçamos do que nos ensinam os latinos: facta potentiora sunt verbis. Os fatos têm mais força que as palavras. E o fato é este: as Instituições de ensino não mais estão ensinando, o sistema educacional está muitíssimo distante da realização de algo que possa ser chamado de educação e nós, professores, que confessamos, sinceramente, intentar ensinar, nos vemos ilhados neste mar de desesperança.

Sim, aumentou o número de escolas, de salas de aula, de Instituições de Ensino, de bibliotecas, de recursos destinados a educação, entretanto, todos estes elementos não são dirigidos para a vereda do ex ducere. Aliás, como nos ensina Sto. Tomás de Aquino, uma coisa perece quando ela é impedida de chegar à sua finalidade e, a muito, que a educação vem sendo apartada de seu caminho originário e, consequentemente, de sua razão de existir.

Sim, isso tudo é de uma imensa perversidade, não há necessidade de dizer. Todavia, torna-se apropriado indagar: o que temos feito em relação a tudo isso? Aliás, de que maneira, direta e indireta, temos contribuído para a formação e consolidação deste quadro aterrador? Gostemos ou não, são estas duas perguntas que devem ser cultivadas no âmago de nossa alma para que sejamos capazes de reconhecer as nossas digitais impressas neste lamaçal ignóbil para, quem sabe, corrigir os nossos erros que em muito contribuíram no avolumar desta sujeira toda. Ou então, que nos locupletemos todos e paremos de fingir nos preocupar com algo que simplesmente ignoramos.

Pax et bonum
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