AQUELES QUE TIVEREM OUVIDOS...

Escrevinhação n. 866, redigido em 21 de dezembro de 2010, dia de São Pedro Canísio.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Há muitas centúrias passadas Santo Afonso de Ligório nos lembra um acontecimento que ocorreu em um Natal que fora celebrado há muitos séculos distantes dos dias em que ele pisou e caminhou por esse vale de lágrimas. Conta-nos que em certo Santo Natal, São Francisco de Assis andava pelos caminhos dos bosques a chorar e suspirar, sem consolo. Diante dessa imagem, uma anônima alma aproxima-se do irmão de Assis e pergunta-lhe qual seria a razão de tamanho pranto. Este, em meio às lágrimas advindas de seu pranto, disse: “Como não chorar, vendo que o amor não é amado? Vejo um Deus como que perdido de amor ao homem, e o homem tão ingrato para com esse Deus!”

Após nos lembrar essa passagem da vida dessa aquilatada alma, Santo Afonso, piamente, pergunta: “Se a ingratidão dos homens afligia tanto o coração de São Francisco de Assis, quanto mais não terá afligido o Coração de Jesus Cristo?” Eis aí a pergunta que deveríamos fazer ecoar nos átrios de nosso coração neste Tempo Litúrgico e em todos os dias de nossa vida que estão por vir. Mas é obvio que não queremos levantar essa pergunta. Não queremos saber que nos importunem com a vergonhosa verdade sobre nós, sobre nossa imensurável ingratidão, sobre nossa incalculável insensatez humana frente à realidade da imensidão do amor divino por cada um de nós.

O amor, meu caro, é uma virtude teologal, infundida por Aquele que é em nós. Entretanto, cabe lembrar que para amar alguém é necessário conhecer a pessoa que nos inspira o amor. Sim, o Deus de Abraão, Issac e Jacó nos conhece intima e perfeitamente, visto que Ele é a Sabedoria, é Aquele em que tudo existe e é. Ele é a Perfeição e o Amor que nos conhece mais do que nós mesmo nos conhecemos.

Bem, e quanto a nós? O quanto realmente conhecemos Deus? O quanto nos esforçamos para conhecer e compreender os desígnios Dele em nossa vida? O quanto procuramos nos empenhar em nos amoldar àquele que é O Amor?

Há um belíssimo verso de um dos sonetos de Camões que nos diz que a maior alegria do amador é tornar-se a coisa amada. Ora, amar significa tão só e simplesmente a realização livre de um gesto de doação, e mesmo de sacrifício, à pessoa amada. Naturalmente, ninguém apresentou um exemplo mais límpido do que significa amar do que aquele que nos foi dado pelo Filho de Davi deixando-se imolar na Cruz, silencioso e resoluto como a um cordeiro, para com Seu sangue nos salvar. E nós, de nossa ingrata parte, em que medida retribuímos esse gesto de amor? Com que gesto procuramos demonstrar que as palavras que saem de nossos lábios são uma sincera confissão de amor ao Cristo? Realmente apresentamos gestos que vão além das palavras, que retratam o nosso amor por Aquele que é o Amor?

Sim, estamos nos aproximando do Santo Natal, é tempo de júbilo! Deus está conosco! E nós, realmente, procuramos estar com Ele? Procuramos? Sim, podemos mentir para aqueles que estão a nossa volta, até mesmo pode-se mentir para si mesmo. Porém, não nos é possível enganar o Olhar onisciente de nossa consciência. De mais a mais, mentir, omitir, calar a verdade é negá-la. É negar Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ah! E quantas vezes fazemos isso! Quantas vezes, em nosso íntimo, por desfibramento espiritual e ignorância, negamos o amor Daquele que deu-nos a mais clara e transparente declaração de amor?

Era isso que inquietava o coração de São Chico de Assis. Era essa imagem que desassossegava Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso mesmo! Não foi apenas no horto das oliveiras que Nosso Senhor se deparou com a imagem da realização de sua Paixão. Desde a noite dos tempos que o Verbo divino conhecia a sua Paixão. Desde os tempos que antecedem o firmamento que Ele sabia o quão duro é o nosso coração e, mesmo assim, rebaixou-se para chegar até nós. Encarnou-se e Viveu como homem e entre os homens. O amor andou por entre nós e, o que fizemos? O insultamos. O flagelamos. Nós o matamos.

E continuamos a matar, de pouquinho em pouquinho, todo santo dia. Matamos Aquele que é amor imaginando agir como quem conhecesse suficientemente bem a Deus sem ao menos ter desejado vivamente conhecê-Lo como todas as almas Santas o fizeram. Ele se doou por amor. Nós, de nossa parte, pouco doamos a Ele e quando o fazemos empavonamo-nos como um biltre.

Por fim, que neste Santo Natal, ao volvermos as meninas de nossos olhos para o menino que repousa na manjedoura, saibamos que um menino há 2010 anos, aproximadamente, sofria com as dores que iria passar em nome de pessoas de putrefaz caráter como eu e você, que nada somos com nossas pueris glórias, mas que, podemos nos tornar alguém se aceitarmos crescer em Espírito e Verdade, permitindo que esse Amor nos molde na procura amorosa por Ele.

Não permitamos que esse sacrifício tenha sido em vão. Sejamos mais do que o nome Cristão. Sejamos almas que com auxílio da Graça fazem-se Amor conhecendo e amando Aquele que é Amor.

Pax et bonum
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