PÁGINAS AMARELADAS PELO ESQUECIMENTO – parte I

Escrevinhação n. 858, redigido em 06 de novembro de 2010, dia de São Leonardo Noblac.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Quem conta um conto, aumenta um ponto. Assim roga o velho dito popular. Dito este, carregado de grande sabedoria por retratar jocosamente uma evidente verdade. Verdade esta que, como todo extrato da realidade, é sumamente desdenhada pelos nossos olhares que se encontram na maioria das vezes embebidos de toda e qualquer vã curiosidade ou, nos casos mais complexos, com a alma envenenada com toda ordem de delírios utópicos e ideológicos que camuflam o entendimento com o engodo advindo do douto desprezo pelo ato de conhecer.

Infelizmente, o ensino das chamadas humanidades está repleto desta impostura. Mas como reconhecer e diagnosticar esse problema? Como identificar essa pústula no centro de nosso ser? Inicialmente, depende da forma como procedemos no ato de conhecer. Como nos ensina Platão, o primeiro no ato do conhecer é o último na realidade do Ser. Trocando por miúdos, o que o grande mestre dos Jardins de Acádemo está nos advertindo é para o fato de que a realidade se apresenta a nossa alma em camadas superpostas. Naturalmente que isso não significa que a primeira camada de nosso entendimento seja um reles engodo, mas sim, que esta é apenas pequena e superficial quando comparada com a inteireza do real.

Infelizmente, na maioria das vezes, quando conhecemos algo novo, ou algo novo sobre um assunto que “conhecemos”, não procuramos avaliar este conhecido pelo seu valor epistêmico, mas sim, pela forma como essa informação se articula com o nosso universo simbólico modelado pelas nossas paixões pessoais, por nossa formatação utópico-ideológica, por nossos interesses (individuais e grupais) e, muitas das vezes, pela nossa futilidade intrínseca (típico da geração do “tô nem aí”).

Naturalmente que essa impostura abunda em nossa sociedade e, conseqüentemente, estas sementes de joio encontram em nossa alma um solo fértil para germinar. Corrigir a sociedade com o maroto dedo acusador seria contraproducente. Todavia, nos corrigir e procurar nos elevar frente essa torpeza que infecta a sociedade com plúmbeos ares é algo que devemos fazer se realmente amamos sinceramente a procura pela verdade e fazemos desta procura o sentido de nossa vida.

Procura pela verdade. Eis aí um ponto interessante para iniciarmos uma caminhada. Quando se fala no VERITATIS SPLENDOR, rapidamente aparece um daqueles engraçadinhos presunçosos, ignorantes de si e de tudo mais, dizendo: “como é possível falar em procura pela verdade se tudo é relativo?” Bem, sem discutirmos a essência flato[lógica] desta consideração, vejamos apenas o porque ela é insana em si mesma. Se o indivíduo não é capaz de constatar a objetividade da Verdade e, conseqüentemente, do ato de conhecer, o que ele procura quando está conhecendo? Somente mais um ponto de vista para futilmente agregar a sua coleção de pontos de vistas sem ponto de referência real?

Naturalmente que este tipo ao ler (ou ouvir) uma consideração como esta irá recorrer ao JUS SPERNIANDI. Tudo bem, mas nós devemos aceitar a sua manifestação como uma expressão da verdade ou como apenas mais um ponto de vista em meio a tantos outros? É claro que todo preclaro relativista crê que o ponto de vista de todos é relativo e que o seu é um decantado estrato da realidade porque ele “superou” as contradições da sociedade e libertou-se dos grilhões da alienação. Ele não declara abertamente isso, por dissimula uma “humildade”, postiça como sua sinceridade, mas afirma tudo o que crê como sendo um dever grave que deve ser cumprido por todo aquele que foi “iluminado” pelo catecismo materialista dialético.

Sem percebermos, muitas das vezes acabamos por agir como fundamentalista. Detalhe: entendamos por fundamentalistas o elemento que se apega a uma idéia, ideologia ou teoria e a torna medida de todas as coisas existentes e da própria existência. Ora, não é assim que agem praticamente todos os nossos auto-proclamados “pensadores críticos” com os seus jargões rotos e cacoetes mentais alucinantes?

Pax et bonum
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