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Escrevinhação n. 857, redigido em 02 de novembro de 2010, dia de finados.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"O temor de pequenas coisas faz as grandes superstições." (Camilo Castelo Branco)

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Um ensino que nos é ministrado pela Doutrina da Santa Madre Igreja sob a orientação da filosofia de Santo Tomás de Aquino, é que o Cristão deve viver sem medo. Se ampliarmos os átrios de nosso peito, perceberemos que estas palavras encontram-se pulsando vivamente também na tradição helênica. Quando lemos os diálogos Platônicos ou mesmo filósofos latinos como Sêneca e Cícero nos deparamos com apelos similares feitos diretamente a nossa alma. Tocando por dorso (ou qualquer outro miúdo de sua preferência), viver de maneira dignamente humana significa singrar por este vale de lágrimas sem temor.

O temor de Deus é princípio de Sabedoria (IX; 10), sim, como nos ensina o Livro dos Provérbios, porém, devemos ter destemor perante os três inimigos da alma. Entretanto, no Brasil contemporâneo, a regra que se faz geral é justamente o inverso do que foi dito até aqui. De uma maneira ampla e irrestrita, as pessoas (em especial as que se vêem empavonadas com títulos, diplomas e cargos – muitas vezes “inhos”) temem vergonhosamente mais o que as pessoas vão dizer do que o juízo Daquele que É a Verdade (1ª Carta de São João II; 15-17). Tamanha é a inversão dos valores que hoje impera nestas terras abaixo da linha do Equador que qualquer sandice proclamada contra o Espírito de Verdade, em nome do mundo, da carne e das potestades das trevas, é aceita como sendo algo, como diria, “moderado” e, por isso, digno de “respeito”.

Nestes últimos meses tivemos manifestações de inúmeros clérigos da Igreja Católica Apostólica Romana em defesa da vida. Sacerdotes que deram um legítimo testemunho de coragem apostólica falando abertamente contra o aborto, pronunciando-se virilmente em defesa da Vida e da Fé, tal qual ensina a sã doutrina da Igreja. Todavia, para cada alma de ouro, com seu gládio afiado na fidelidade à Nosso Senhor Jesus Cristo, havia e há uma multidão de almas de lata que de maneira insensata e pusilânime preferiram agradar ao mundo que servir a Deus.

Vergonhoso para todos nós, Cristão Católicos, ter havido a necessidade do Santo Padre Bento XVI lembrar aos clérigos temerosos de suas obrigações. E detalhe: para aqueles que leram o discurso do Papa perceberam com grande clareza que cada palavra dita estava fundada naquilo que a Santa Madre Igreja defende já de longa data e que não era o fruto de um reles impulso de ocasião. O Sumo Pontífice lembra-nos em sua preleção do conteúdo da Constituição Pastoral Gaudium et Spes (do Concílio Vaticano II), da Exortação Apostólica Christifideles Laici de João Paulo II, da Encíclica Evangelium vitæ de Paulo VI e, naturalmente, dos ensinos que fazem-se presentes na primeira encíclica de seu Pontificado - Deus caritas est.

Ou seja: Bento XVI apenas estava lembrando os sacerdotes daquilo que todos eles deveriam saber desde antes de sua ordenação. Em 28 de outubro do ano de 2010 da Graça de Nosso Senhor, afirmou o Vigário de Cristo que: “[...] seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural. Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases”.

Dizer a verdade não é calúnia. Porém, calar-se diante da ignomia por medo de ser vexado pelas potestades abjetas é um insulto contra a Verdade. Ser verdadeiro e fiel aos princípios Cristãos não significa agradar ao mundo e ser afável com suas sandices (São João XV; 18-26), mas sim, ser firme em seu sim e profundamente claro em seu não (São Matheus V; 37). Ser reto no agir e não dúbio como o mundo que singra ao toque da marcha das massas, ditado pelo tom dos tiranetes leviatãnicos com seus falsos profetas de plantão que abundam nos dias hodiernos.

Como havíamos dito em nossa missiva anterior, não há em nosso país canais políticos, culturais e midiáticos em que possamos encontrar uma clara e franca postura conservadora, porém, cada um pode e deve perseverar na defesa destes valores e princípios estudando-os e vivendo-os e, deste modo, fortalecendo-se em Espírito e Verdade (São João XIV; 17). É nesta vereda que devemos fiar a nossa ação cívica. Não será através dos partidos rubros e fisiológicos que maculam nossa sociedade e muito menos através de um líder carismático ou de um caudilho aventureiro, mas sim, através de nosso aprimoramento como pessoa, enquanto súditos Daquele que venceu a morte. Assim, com o tempo, nascerão árvores de boa cepa que renderão bons frutos.

Até lá lutemos o bom combate.

Pax et bonum
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