FÚTEIS REFLEXÕES E NADA MAIS

Escrevinhação n. 859, redigida em 15 de novembro de 2010, dia de São Alberto Magno.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Transforma se o amador na cousa amada...”
(Luís Vaz de Camões)

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Somos uma geração de fracos. Uma sociedade de desfibrados que dia após dia caminha por uma senda vazia crendo tolamente que tal vereda seja a forma mais elevada de vida virtuosa. Assustamo-nos com todo e qualquer perigo (hipotéticos, na maioria das vezes) que possa assolar nosso corpo e nossa segurança ao mesmo tempo em que desprezamos nossa alma. Preferimos afagar a vaidade da multidão que parasita em nosso entorno do que fintarmos nosso olhar e nossas palavras pelo rumo do dedilhar da Verdade, mesmo que isso custe nossa sinceridade e, conseqüentemente, nossa sanidade espiritual.

Um sintoma característico desta fragilidade encontra-se na temática de nossas conversas. Bastam apenas alguns minutos de prosa que o assunto é a saúde física e a aparência estética. Obviamente, que mais do que depressa cada um apresenta uma e outra receita para manter a boa forma ou então informa os pares sobre uma e outra matéria que leu em uma revista aqui ou viu em um programa televisivo acolá que versa sobre os malefícios disso e os benefícios daquilo para o corpinho.

Todavia, mude a conversa para a sanidade espiritual. Bem, se o tom da prosa já era estupidificante no primeiro ponto, neste, o conto torna-se patético. Aliás, revela o quão patético nos tornamos na sociedade moderna, visto que, não mais se compreende o sentido do que significa a vida espiritual e intelectual e, toda vez que tenta-se macaquear um simulacro desta, acaba-se por expressar apenas uma reles e superficial caricatura. Detalhe: quanto mais “estudada” é a pessoa, mais estupidificada se apresenta suas considerações sobre este assunto.

Para melhor ilustrar o que intentamos apresentar, permitam-nos recorrer ao uso de um exemplo significativo sobre este degradado quadro. Certa feita em uma destas paragens que meus pés me levam, ouvia eu a conversa de um grupo de, como se diz, “formados”, onde se dizia que eles achavam uma bobagem esse negócio de muitas senhoras reunirem-se no dia da Assunção da Santíssima Virgem para rezar as mil Ave-Marias. Bem, de um grupo de doutos ignorantes diplomados não se poderia esperar algo mais elevado. Todavia,o “x” da questiúncula é que a conversa iniciou-se a partir dos comentários irônicos que um Padre teria feito sobre esta piedosa devoção. Em fim, a arrogância e o disparate festejavam nos lábios dos palpiteiros (de)formados que desprezam o conhecimento fingindo possuí-lo.

O padreco pode achar um absurdo que um grupo de senhoras pratique uma devoção que exija tão grande esforço. No entendimento destes (do pseudo-padre e dos “entendidos”), elas estaria recitando as orações sem saber claramente o que estão fazendo e dizendo. Ótimo! Mas, e quanto aos distintos, sabem o que dizem e o que fazem? Sabem eles que esta devoção era recomendadíssima pelo finado Papa João Paulo II? Será que eles estão cônscios de que nas várias aparições da Santíssima Virgem esta pede aos fiéis que realizem grandes esforços no caminho da oração e da penitência? Putz! É claro, como eu poderia me esquecer que estas pessoas são (em suas cabecinhas) maiores que a Igreja e mais sapientes que a Santíssima Virgem.

Indo mais adiante sobre este ponto, bastaria que as almas (in)cultamente diplomadas estudassem um pouquinho que fosse a biografia e a obra dos grandes Santos e místicos que, primeiro, iria perceber que todos eles, sem exceção, dedicavam-se a contínuas e longas orações. Segundo: que eles recomendavam vivamente essa prática a todos os fiéis e apresentavam em sua obra e em sua maneira de viver os luminosos frutos advindos de sua presteza. Obviamente que é muito mais cômodo acreditarmos que nossa preguiça espiritual e moral é um mérito e que a perseverança um vício. Tão cômodo quanto corruptível.

De mais a mais, se tomarmos em mãos as Sagradas Páginas, poderemos averiguar que o Senhor nos ordena que procuremos a Oração Permanente (1 Tes V: 17; Lc XVIII: 1; Tim II: 8 e Ef VI:18). Ao invés disso, o que procuramos? Procuramos dedicar mais tempo a mundanos assuntos que, em si, são de uma superficialidade atroz e desprezamos olimpicamente o que deveria ocupar o centro de nossa vida. E se isso não fosse o suficiente, ainda palpitamos com toda aquela autoridade postiça característica de nossa época.

Por fim, em uma sociedade que entende a preocupação patológica em relação à aparência, que é determinada simplesmente pelo gosto e desgosto das multidões bestializadas, como algo normal a Verdade, naturalmente, não encontra um coração que à abrigue e a alma e a inteligência humana divorciada da Verdade perecem similar ao rio que se aparta de sua nascente.

Não é à toa que sejamos atualmente tão crédulos e desfibrados.

Pax et bonum
Site: http://dartagnanzanela.k6.com.br
Blog: http://zanela.blogspot.com

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