PEQUENAS NOTAS E NADA MAIS

Escrevinhação n. 856, redigido em 27 de outubro de 2010, dia de Santo Elesbão e São Frumêncio.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Certos homens odeiam a verdade, por amor daquilo que eles tomaram por verdadeiro". (Santo Agostinho)

- - - - - - - + - - - - - - -

Muitas lições podem ser aprendidas neste pleito. Dentre elas, a que julgo ser da maior importância é que nesta eleição ficou patentemente claro que o povo brasileiro é profundamente conservador e que, paradoxalmente, não possui nem canais políticos, nem midiáticos e muito menos culturais para expressar os princípios que fundamentam a sua vida, os valores que regem o seu senso de cidadania.

Naturalmente, não devemos entender a palavra conservador no sentido pejorativo que a intelectuária canhota lhe atribui. Para estes, conservador é apenas uma topus (lugar comum) para insultar os seus desafetos, ou seja, todos aqueles que não concordam com suas idéias maravilhosas de um “mundo melhor possível”.

Entendamos por conservador o que Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e tutti quanti compreendiam. Trocando por miúdos: ser conservador, em princípio, significa compreender que apesar de todas as mutações e degradações que se apresentam no mundo existe na alma humana uma estrutura permanente que deve ser preservada, porque essa é essa nos define.

Todavia, na atmosfera cultural em que estamos inseridos na atualidade, tornou-se praticamente um valor supostamente sacrossanto que a sociedade e bem como a humanidade devem ser transformados em sua essência em algo hipoteticamente melhor mediante, é claro, a concentração de poder nas mãos de um grupo político que vê a si mesmo como sendo portador das mais elevadas qualidades, tal qual nos ensina o filósofo Olavo de Carvalho.

Aliás, como nos ensina o professor Michael Oakesshott, o conservadorismo se baseia, inicialmente, em um senso de “[...] gratidão adequada por aquilo que está à disposição e, consequentemente o reconhecimento por uma dádiva ou uma herança do passado”. E, nossa cultura reinante, ao contrário, nos ínsita a revermos tudo o que nos foi deixado, sem ao menos conhecer o que estará sendo supostamente revisto, justamente porque imagina-se que o nosso tempo é superior a todas as outras épocas vividas pela humanidade e que seria um dever de nossa geração mudar tudo para que tudo fique de acordo com nosso turva imagem e semelhança.

Tal impostura, presente em nossa cultura, é essencialmente gnóstica. O gnóstico, segundo Eric Voegelin, é aquele que vê a realidade como sendo essencialmente ruim. Vendo o mundo com essa visão nebulosa, lhe restaria apenas duas alternativas: a fuga da realidade ou a revolta contra ela. O que é interessante é que para este tipo, todo mundo é ruim, menos ele, é claro. Ama a humanidade, mas é incapaz de ser ao menos gentil para com os seus próximos.

Doravante, Russell Kirk, nos ensina que o conservador “[...] acredita que existe uma ordem moral duradoura. Que a ordem está feita para o homem, e o homem é feito para ela: a natureza humana é uma constante, e as verdades morais são permanentes”. Não é à toa que todo ciclo moderno foi profundamente marcado pela ação de uma intelectuária que tinha por objetivo inverter a percepção desse dado da estrutura da realidade para assim melhor impor a sua (in)compreensão de mundo as pessoas. Ou seja: disseminando a crendice de que os princípios morais não são universais ao mesmo tempo em que se afirma, levianamente, que eles seriam apenas um reles produto cultural, absolutamente relativo, para melhor subverte a ordem moral.

Por isso toda ação política, conforme nos lembra Leo Strauss, está fundamenta em uma compreensão do que seja “o melhor” e “o pior”. Consequentemente, esse pensamento do que seja um e outro, nos leva a um entendimento do que seja o Bem, do que seja uma boa vida, uma boa sociedade. Entretanto, muitas das vezes essa compreensão está em contradição com o que o ser humano é. Esse é o caso de toda doutrina materialista como marxismo e todos os matizes totalitários que crêem poder refazer a natureza humana, melhorar a humanidade sem ao menos parar para refletir que ele enquanto pessoa deveria, antes de cogitar isso, melhorar-se, como nos ensina Confúcio já a longa data.

Bem, é neste sentido que o povo brasileiro é conservador e, para surpresa da intelectuária orgânica rubra, neste pleito, apesar de não ter encontrado um grupo político que sinceramente represente os esses princípios, muitas pessoas encontraram uma bandeira que foi abraçada vivamente que é a luta contra a legalização aborto e a conversão ignóbil disso em “direito humano”.

Porém, é fundamental que não calemos a nossa voz após o dia derradeiro. É imprescindível que procuremos ter claro em nosso íntimo os valores que nos definem como pessoa e defendê-los publicamente, ensiná-los a quem tiver ouvidos, sem medo de sermos rotulados de conservadores, pois, defender a vida é um dos princípios do conservadorismo e, insultar com jargões e cacoetes mentais esvaziados de significado é a própria essência da mentalidade dos indivíduos que se denominam progressistas. E, se o sentido das palavras revela quem nós somos, tais palavras esvaziadas de sentido revelam claramente o que há realmente no íntimo destes boníssimos sujeitos, não é mesmo?

* * *

Obs.: Com grande alegria estamos inaugurando em nosso web site - http://dartagnanzanela.k6.com.br - uma sala virtual de conferência. Nesta segunda-feira a partir das 18h00, teremos a primeira transmissão, ao vivo, de uma breve preleção e, desde já, agradecemos a sua presença.

Pax et bonum
Site: http://dartagnanzanela.k6.com.br
Blog: http://zanela.blogspot.com

Comentários