MULTIPLICIDADE DO ESTRAGO

Escrevinhação n. 852, redigido em 08 de setembro de 2010, dia de São Tomás Vilanova, São Sérgio I e do Bem-aventurado Frederico Ozanam.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Somente se tem Deus, quando não se dispõe de nenhum Deus próprio, confiando-se somente ao Deus que é o Deus”.
(J. Ratzinger – Papa Bento XVI)

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Todas as religiões são iguais. Eis aí um discurso que se faz presente em meio a esse caudal relativista-multicultural da sociedade contemporânea. Discurso esse que é uma falácia até a sua medula, como tudo o mais que parta do princípio chulo do nivelamento das manifestações humanas a partir do pré-suposto relativista que infecta a grande mídia, os círculos intelectuais e a educação.

Sem muitas delongas, lembramos logo de início que as religiões não são manifestações humanas do mesmo gênero. Muito pelo contrário. Cada uma delas possui elementos muitíssimo específicos. O que elas têm em comum é sumamente desdenhado pelos devotos do multicultarismo. Todas as religiões fundamentam-se nos mesmos elementos que se fazem presentes na estrutura metafísica da realidade, tal qual nos explica Fridjof Schuon em seu livro LA UNIDAD TRANSCENDENTE DE LAS RELIGIONES. Ou seja: as religiões verdadeiras (não as seitas biônicas) são essencialmente objetivas, visto que se baseiam em elementos perenes que constituem a realidade e estão presentes na alma humana.

Uma confissão religiosa não é um conjunto de opiniões que uma pessoa emite sobre Deus, sobre si mesmo e sobre a realidade. Uma religião é uma via pela qual o indivíduo procura encontrar-se com Aquele que É mais ele do que ele mesmo, um meio onde um indivíduo procura realizar a perfeição que lhe é cabido por sua natureza primordial e que, devido a uma mácula originária, decaímos desta condição.

Ora, se existe um elemento constante tem todas as tradições religiosas é esta: o declínio originário da humanidade. Mas esta semelhança que há entre as mais variadas tradições não é um reles constructo cultural, não mesmo. É um elemento constante na constituição da alma humana que é manifesto de maneiras singulares em cada tradição, mas sempre, comunicando a mesma verdade universal.

Dito isso, cremos que fica claro perceber que cada tradição sacra procura apresentar um caminho para resolução deste problema perene. Cada uma apresenta-se como uma via de elevação da alma humana. Todavia, elas não são idênticas. No máximo podem ser análogas, mas nunca idênticas e nem devem ser tratadas como tal. Por que? É simples: se toda tradição religiosa é uma via de salvação não é possível seguir mais de uma via ao mesmo tempo. O objetivo de uma vida religiosa é amoldar nossa vida de acordo com os preceitos desta para que possamos nos libertar de nosso egocentrismo, de nosso universo subjetivo para que a Verdade gradativamente nos molde e venha a nos lapidar e isso é apenas possível em uma via e não em várias fiadas ao mesmo tempo de acordo como ânimo do sujeito.

É mais do que comum vermos pessoas fazerem uma literal miscelânea Sacra sem ao menos flagrar-se da confusão que está gerando para sua alma e, na maioria das vezes o faz não em nome do respeito pelas demais tradições, mas sim, (i) por um ato de rebeldia frente a sua tradição originária (ii) ou como fruto de uma manifestação de seu orgulho, de seu desejo de moldar a si mesmo, por crer ser mais sapiente do que a Revelação Divina. Revelação esta que na maioria absoluta dos casos é desdenhada por este que a recusa.

E vejam só, não estamos dizendo que não é apropriado conhecer outras tradições religiosas. Não mesmo. O que afirmamos e endossamos mais uma vez é que elas são manifestações de gêneros distintos e que, por isso mesmo, não devem ser niveladas em um mesmo patamar, tratadas e manipuladas de maneira leviana como se todos fosse uma mesma coisa, como se fossem reles curiosidades musicológicas e nada mais.

Aliás, todo aquele que com afinco se dedica a uma confissão compreende claramente que conhecer e viver uma única religião é um trabalho para vida toda o que, por essa mesma razão, acaba gerando uma grande sentimento de piedade para com todas as demais manifestações sacras verdadeiras, tal qual nos ensinam Fridjof Schuon, o Papa João Paulo II, C. S. Lewis, Prabhavananda e tutti quanti. Piedade esta cada vez mais ausente no mundo contemporâneo, mundo este marcado pelo seu ignóbil materialismo norteado pela crendice idolátrica multicultural.

Em um mundo onde uma clara noção hierárquica dos valores é desdenhada, o respeito torna-se um reles simulacro, pois, não mais sabemos o que é digno de tal sentimento por não mais sabermos o que é e o que se deve desprezar.

Pax et bonum
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