E DEPOIS O FANÁTICO SOU EU – breves considerações

Escrevinhação n. 855, redigido em 19 de outubro de 2010, dia de São Paulo da Cruz.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Nada se aprende sem um pouco de trabalho”.
(Sta. Teresa d’Ávila)

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É incrível como as pessoas que menos compreendem as suas próprias razões são as primeiras a lhe chamar de fanático. Incapazes de flagrar-se como sendo os únicos a estar dando uma clara demonstração de obscurantismo secular ideológico em uma efusiva massa ululantemente “crítica” com seus jargões e cacoetes mentais que cansam qualquer ouvinte. Bastou que inúmeros cidadãos, Cristãos Católicos, Cristãos Evangélicos, Espíritas e inúmeras outras tantas almas que se esforçam em reger suas vidas pela régua do bom senso declarar o óbvio para elas se enfurecerem civicamente. Bastou apenas ser lembrado que legalizar a prática do aborto é um absurdo moral, que, mais do que imediato, os patrulheiros ideológicos rubros, sempre de plantão, já começaram a vociferar: “Fanáticos! Inquisidores! Conservadores! Retrogradas! Reacionários! Manipuladores da fé popular!” E por aí verga o andor de dissabores.

Tudo bem, se pessoas como eu são fanáticas, vamos então aos fatos: se volvermos as nossas vistas para as laudas do PNDH – 3, especificamente em suas páginas 91 e 92 encontraremos o seguinte: “Considerar o aborto como tema de saúde pública, com a garantia do acesso aos serviços de saúde. (Redação dada pelo Decreto nº 7.177, de 12.05.2010).[e...] Recomenda-se ao Poder Legislativo a adequação do Código Penal para a descriminalização do aborto”. Não precisamos lembrar que o Programa Nacional de Direitos Humanos é um documento da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Trocando por miúdos: não se está difamando, insultando e muito menos manipulando ninguém, mas apenas apontando um fato que, em meu ver é, ao mesmo tempo, óbvio e de grande relevância.

Como também julgamos ser de grande relevância lembrar que o atual governo se comprometeu junto a ONU, em abril de 2005 a legalizar o aborto nesta terra de Vera Cruz e em agosto do mesmo ano, junto a mesma, a reconhecer o aborto como um Direito Humano da Mulher. Inclua-se aqui o boicote que houve a chamada CPI do aborto que iria investigar as origens do financiamento por parte de organizações internacionais para a legalização e a promoção do aborto no Brasil. Conclusão: bandeiras de longa data como estas não são abandonadas, meu caro Watson, mas apenas arriadas por conveniência e oportunismo que este momento sugere.

Doravante, lembro aqui as falas de algumas vozes oficiosas que afirmavam que esse documento (PNDH – 3) é fruto das discussões ceifadas nos movimentos sociais e que, por isso, representaria a vontade da sociedade. Todavia, perguntamos: em que medida esses ditos movimentos são legítimos representantes da sociedade brasileira? Ora raios, 87% da população brasileira é contra a legalização do aborto. De mais a mais, cabe destacar que muitas das mulheres e homens que praticaram ou foram coniventes com um aborto arrependem-se do feito e se colocam contra isso. Para os defensores do aborto isso seria um sinal de hipocrisia. Para os defensores do bom senso isso se chama arrependimento mediante um exame de consciência. Ah! Mas é claro que para se fazer e compreender o que é isso é preciso ter uma, não é mesmo?

Poderíamos ir para um pouco além dos fatos e refletirmos sobre os valores que estão presentes na defesa da legalização deste “problema de saúde pública”. A questão do aborto não é um reles pomo de discórdia ocasional e eleitoreiro, apesar de muitas almas obtusas apenas ver isso na querela. Temos presente nesta discussão toda uma peia em torno de uma concepção de civilização e de ser humano em jogo. Uma fundada em princípios metafísicos e sacros que compreendem o humano como um ser que transcende o material, tal qual nos ensina a Santa Doutrina Cristã. A outra apresenta-nos uma concepção materialista, utilitarista e hedonista do sentido da vida humana e vislumbra o indivíduo apenas como humano na medida em que possa mundanamente “ser” e nada mais.

Sobre este ponto, sabemos que a querela é muito mais extensa do que o parvo parágrafo que antecede a este. Aliás, a documentação sobre o tema é deveras significativa para ser desdenhada do mesmo modo que o que está em jogo é muito mais sério do que a vitória ou a derrota do candidato “A” ou “B” neste pleito.

Antes de findar, voltemos ao fanatismo. Estas “pessoas maravilhosas”, que acham um absurdo falar-se que o aborto não deve ser legalizado, afirmam sempre defender a liberdade de expressão, porém, sempre ficam espantadas, acachapadas, quando outras pessoas, adversários ou não, tem a ousadia de expressar idéias e ideais diversos dos seus. Que coisa em? Como podem ser assim tão ousados e abusar tanto assim da boa vontade destes indivíduos organicamente iluminados e comprometidos como eles? É, e depois o fanático sou eu.

Por fim, cremos que quem conseguiu descrever esta mentalidade da intelectuária militante coletivista de uma forma absurdamente clara foi o sociólogo Raymond Aron em sua obra clássica “O ópio dos Intelectuais”, o historiador Paul Johnson em seu livro “Os Intelectuais”, o Embaixador J. O. de Meira Penna em “A ideologia do século XX” e os filósofos Albert Camus em seu imperdível “O Homem revoltado” e Olavo de Carvalho em seus memoráveis “O Imbecil Coletivo” e “Da Nova Era à Revolução Cultural – de F. Capra à A. Gramsci”. Mas, para que apresentar essas obras juntamente com os seus autores? Ué, ao contrário do que os iluminados imaginam, as pessoas que não partilham de seus “ideais” estudam e, por incrível que pareça, existe muito mais coisas entre o céu e a terra do que julga a sua vã idolatria materialista.

[um dia desses, continua...]

Pax et bonum
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